A crise financeira mundial parece não ter ainda chegado ao sector da música online a avaliar pelos milhões de dólares que os capitalistas de risco continuam a investir desalmadamente em todas as startups acabadinhas de lançar que prometem revolucionar a Música 2.0. Isto apesar da onda de processos instaurados pelas majors no intuito de extorquir alguns milhõezitos de dólares em acordos de licenciamento que implicam quase sempre contratos unilaterais. A mais recente a entrar na arena é a myAWOL, um acrónimo para My Artists Without Labels (qualquer coisa como “Os Meus Artistas Sem Editora”).
Esta companhia sediada em Los Angeles que, segundo o VentureBeat, foi lançada com um investimento inicial de dois milhões de dólares e pretende conjugar serviços dirigidos para a indústria da música com serviços para os consumidores de música. Basicamente, a myAWOL propõe um modelo de negócio que combina características de uma plataforma de promoção e descoberta de novas bandas a la MySpace com os de um directório de profissionais do sector. Ah, como se isto não fosse suficiente, a myAWOL quer também readaptar o conceito tradicional de canal de televisão de música como a MTV ao mundo da Web 2.0. Pena é que já existam vários candidatos a MTV 2.0, entre eles o site de vídeo Pitchfork TV da influente publicação indie Pitchfork. Por último, a myAWOL pretende também ser um novo tipo de editora online. Onde é que eu já ouvi isto? Terá sido a propósito da RCRD LBL?
Mas vejamos então o que é justifica que alguém tenha decidido investir dois milhões de dólares nesta empresa com um logótipo um pouco “heterodoxo” mas que neste momento não oferece mais do que um beta privado. Em primeiro lugar, a empresa pretende lançar já no próximo mês a Music Industry Database (MIDB), um site que pretende ser uma espécie de IMDB (Internet Movie Database) para a música mas menos direccionado para o segmento dos consumidores. O objectivo é criar uma espécie de directório para produtores, executivos de editoras, artistas sem contrato e músicos de estúdio que permita aproximar todos os profissionais do sector e facilitar a realização de negócios.
Em inícios de Setembro, será então lançado um serviço a pensar nos fãs de música e que irá funcionar como comunidade/rede social, canal de televisão online e loja de comércio electrónico. Os vídeo a exibir serão sobretudo clips de curta duração (90 segundos) em que videobloggers irão apresentar artistas e divulgar notícias. Estão também previstas entrevistas e concertos exclusivos. Quanto à parte da editora, a myAWOL está interessada em assinar contratos de licenciamento não exclusivo com os artistas mais talentosos que abrirem perfis no site. Os músicos e bandas poderão disponibilizar as suas músicas para streaming gratuito ou vender downloads segundo um esquema de divisão de receitas 70/30, de acordo com a TechCrunch.
Parece-me a mim que todo este pacote de serviços é demasiado ambicioso para o modelo da myAWOL vir a dar a certo, principalmente porque a empresa se propõe concorrer directamente com os maiores gigantes do sector da música online: MySpace, Last.fm, Pitchfork. Mas quem sabe, pode ser que esta reciclagem/misturada dê certo. Até porque Andrew Bentley, o fundador da empresa, já desempenhou as funções de director financeiro da Virgin Media e da EMI, bem como de director executivo da divisão desta major para a Ásia Pacífico. Portanto, contactos no interior da indústria é coisa que não lhe deve faltar…
Mas porque carga de água é que Bentley escolheu para iniciais da empresa um termo que nos faz lembrar as iniciais de uma companhia tão Web 1.0 como a America OnLine (AOL)? Mais ainda, como se pode ler nos comentários do TechCrunch, a myAWOL também parece ter-se inspirado demasiado literalmente na Artists Without Label (AWAL – “Artistas Sem Editora”), um agregador digital que distribui música de artistas independentes para lojas online como a do iTunes e que foi responsável pelo sucesso de nomes como os Artic Monkeys, The Klaxons, Editors e Kate Nash. Apesar de não lhe faltar dinheiro – a empresa quer recolher entre oito a dez milhões de dólares adicionais até Outubro -, parece que este antigo executivo da EMI parece padece de uma notória falta de originalidade…
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