Digital quase que compensa descida das vendas físicas de música em Portugal

by Miguel Caetano on 31 de Agosto de 2008

Não há nada mais enganador e menos fiável do que as estatísticas assentes em números que não nos são dados a conhecer. Este é o método mais fácil de deturpar e manipular a realidade dos factos. No entanto, o jornalista Luís Figueiredo Silva parece desconhecer esta regra elementar de pensamento crítico. Num artigo da edição de sexta-feira do Correio da Manhã da sua autoria, ficamos a saber que a venda de discos em Portugal desceu 17,32 por cento durante os seis primeiros meses de 2008 face a igual período do ano anterior.

Aparentemente, esta percentagem foi fornecida pela Associação Fonográfica Portuguesa (AFP). Mas onde estão os números brutos para podermos avaliar qual a verdadeira dimensão descida? O jornalista acrescenta ainda que “nos EUA, maior mercado do Mundo, a queda nas vendas de CD foi de 11 por cento na primeira metade de 2008″, o que corresponde de facto à verdade. O que ele não refere é que esses dados se baseiam no painel Nielsen Soundscan que juntamente com as percentagens divulgou também os números brutos. É que só assim podemos avaliar com rigor qual o peso de uma descida ou subida das vendas.

Parece-me que alguém não fez o trabalho que deveria ter feito, isto é, solicitar à AFP que divulgasse esses números. Outra falha a indicar é que o título da peça é enganador. Se as vendas de discos em suportes físicos como CDs, DVDs e vinil (?!) desceram 17,32 por cento no primeiro semestre, a verdade é que essa descida foi quase compensada pela subida de 35,19 por cento registada no sector digital (incluindo toques para telemóvel e downloads legais via Internet).

Deste modo, as receitas globais da indústria discográfica portuguesa saldam-se por uma ligeira quebra de cinco por cento. Um balanço que está muito longe de ser catastrófico. No entanto, ficamos mais uma vez sem saber como se comportaram as vendas de toques em comparação com os downloads legais. Digo isto porque calculo que este crescimento se deve sobretudo ao “grande negócio da China” que são os ringtones em que as empresas do sector fazem tudo para enganar os consumidores.

Reflectindo a recente moda saudosista em relação às grandes rodelas pretas, as vendas de discos em vinil aumentaram 54 250 por cento. Parece muito, mas se nos lembrarmos de que as vendas de discos desceram 17,32 por cento e pressupondo que o vinil se enquadra nesta categoria de discos, podemos concluir que a base inicial era demasiado insignificante para afectar o conjunto das vendas de longa durações. Por seu lado, os singles também cresceram 1009 por cento. Mais uma vez, ficamos sem saber se esta categoria abrange apenas singles digitais ou também/apenas inclui os CD singles. Enfim, demasiadas interrogações que poderiam ter sido respondidas caso o jornalista não se tivesse limitado a “papaguear” os dados da AFP.

Nota: a imagem que acompanha este artigo está disponível aqui segundo uma licença CC-BY 2.0 e pertence a re-ality.

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diga cultura
2 de Setembro de 2008 ás 21:59

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