In Rainbows dos Radiohead a 10 de Outubro marcou um virar da página para a indústria discográfica. Ao permitir que os fãs descarregassem o disco directamente a partir do seu site pelo preço que desejassem, a banda gerou uma repercussão enorme junto dos media tradicionais e da blogosfera. Mas alguns (em particular, Paul McGuinness, o empresário dos U2) não hesitaram em rotular a iniciativa com a palavra “fracasso” uma vez que a maioria dos utilizadores optou por descarregar o disco a partir de sites de torrents como o Mininova e o Pirate Bay ou então preferiu não pagar nada pelo disco, mesmo descarregando-o a partir do site oficial InRainbows.com.
Menos de uma semana após o lançamento de In Rainbows, Eric Garland, director executivo da Big Champagne – empresa de monitorização de conteúdos partilhados através de redes P2P – revelou que só no dia de lançamento o disco tinha sido descarregado mais de 240 mil vezes a partir de sites de BitTorrent. Depois desse dia, o álbum foi descarregado a uma média de 100 mil vezes por dia. Mas essa estimativa inicial poderá afinal ter ficado muito aquém dos números reais, a julgar por um relatório escrito em co-autoria por Garland e Will Page – economista da sociedade de cobrança de direitos de autor britânica MCPS-PRS Alliance – intitulado “In Rainbows, On Torrents”.
Segundo os dados mais recentes da Big Champagne, no dia 10 de Outubro In Rainbows foi descarregado por mais de 400 mil pessoas a partir de sites de torrents. Até ao dia 3 de Novembro, o número total de downloads do disco através de torrents foi de 2,3 milhões. De modo a estabelecer um quadro comparativo com outros discos lançados por volta dessa altura, os autores indicam que os álbuns de Gnarls Barkley, Panic at the Disco e Portishead não conseguiram sequer obter metade do número de downloads dos Radiohead. Das três bandas, os Panic at the Disco foram os que se comportaram melhor, tendo registado 157 mil downloads numa semana – quase três vezes menos do que no dia em que In Rainbows foi mais partilhado.
Até hoje, os Radiohead nunca divulgaram os números relativos ao total de downloads efectuados a partir do site, pelo que o único dado que temos acesso são os 1,2 a 1,3 milhões de downloads estimados pela ComScore – convém, no entanto, lembrar que os Radiohead contestaram este estudo, sem adiantar mais nada. Mas pressupondo que as estatísticas da ComScore são fiáveis, isso quer dizer que o total de downloads realizados a partir de “portas travessas” foi quase o dobro dos efectuados a partir da fonte.
No entanto, para Garland e Page, os Radiohead acabaram por não perder vendas ao disponibilizar o disco segundo um modelo “pague-o-que-quiser”, devendo os downloads de torrents ser antes encarados como uma forma de promoção e de captar a atenção dos media que levou muitos fãs a comprar o CD físico de In Rainbows. A prova é que o disco acabou por dominar as tabelas de vendas dos Estados Unidos e do Reino Unido aquando do seu lançamento em Janeiro. Isso demonstra que não existe qualquer relação de soma zero entre o aumento nas vendas legais e a redução da “pirataria”.
Os autores adiantam também uma explicação muito própria para justificar o elevado número de downloads via torrents: a “venue hypothesis”. Os utilizadores já estão habituados a recorrer a sites como o Pirate Bay e o Mininova para acederem a música nova. É por isso que não basta oferecer música grátis. É preciso cativar a atenção dos utilizadores e saber onde eles se encontram. E a verdade é que estes sites são dois dos mais visitados em todo o mundo: “O Pirate Bay é uma marca poderosa que goza de uma reputação excepcional nas mentes de milhões de jovens fãs de música.”
O que pode parecer óbvio para todo o cidadão que não se limita a utilizar a Internet para ler o email e os sites dos jornais, é tudo menos óbvio na mente de executivos da indústria discográfica. E é sobretudo para estes que o artigo se dirige. Aliás, o próprio emprego da palavra “pirataria” para se referir à partilha via BitTorrent o indica, mesmo se todo o artigo esteja escrito de modo a nos convencer que a partilha de ficheiros não pode ser equiparada à “pirataria”. O que, no mínimo, é paradoxal…
Garland e Page terminam o artigo indicando que os Nine Inch Nails aprenderam com os erros dos Radiohead e conseguiram canalizar o tráfego que se desloca normalmente em direcção aos sites de torrents para o seu próprio site ao imporem uma fasquia menos elevada ao acesso gratuito e imediato ao disco e ao oferecerem uma série de formatos áudio de superior qualidade à escolha. Mas eles foram ainda mais longe, ao fazerem o upload de Ghosts I e The Slip no Pirate Bay. Nesse sentido, eles aprenderam que por mais que uma banda queira concentrar a atenção gerada pela iniciativa no seu site, existe sempre uma última barreira: o anonimato. Muitas pessoas preferem os sites de torrents porque sabem que não têm que ceder quaisquer dados.
(via Listening Post)
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