Onde está a crise da indústria da música?

by Miguel Caetano on Agosto 27, 2008

Sempre que ouvirem alguém dizer que a indústria da música, não passem cartão. Na maior parte das vezes tratam-se de números relativos à indústria discográfica que apenas reflectem uma pequena parte do bolo total de receitas geradas pela música e que são por isso usados frequentemente como arma de arremesso para justificar o cercear da liberdade dos internautas.

Se quisermos fazer uma análise rigorosa do estado de saúde do negócio da música, temos também que levar em linha de conta várias outras receitas para além das geradas pelas vendas de discos, como as obtidas pelas licenças de exploração cobradas a rádios e televisões que não param de crescer com a multiplicação do número de canais, já para não falar nos media online que contribuem ainda mais para uma verdadeira explosão do número de difusores, logo, pagantes. De facto, talvez não estejamos muito longe da verdade se afirmarmos que a descida das vendas de discos é compensada pelo crescimento dos novos media.

Querem provas? Aqui as têm: há apenas duas semanas referi que a MCPS-PRS Alliance, uma sociedade britânica de gestão colectiva de direitos de autor semelhante à portuguesa SPA, registou um aumento de seis por cento no montante arrecadado em royalties durante o primeiro semestre deste ano (286,1 milhões de libras ou 365 milhões de euros) face a igual período de 2007. 

Mais recentemente, a norte-americana Broadcast Music Inc. (BMI) divulgou pelo 24º ano consecutivo um aumento de receitas. Ao todo, a empresa registou 901 milhões de dólares (613 milhões de euros) cobrados durante o ano fiscal de 2008 terminado a 30 de Junho, o que representa um crescimento de 7,2 por cento em comparação com o ano fiscal anterior, que por sua vez também já tinha representado uma subida de sete por cento face a 2006.

Deste dinheiro, os mais de 375 mil autores, compositores e editores de música representados pela BMI irão receber 786 milhões de dólares (534,70 milhões de euros) em royalties, mais oito por cento em relação ao ano fiscal de 2007 que também já tinha registado uma subida de sete por cento em comparação com o ano anterior.

Será que “crise” é a palavra indicada para retratar uma indústria em que uma sociedade que cobra dinheiro em nome dos criadores vê as suas receitas subirem para mais do dobro ao longo dos últimos dez anos, com uma média de crescimento anual na casa dos sete por cento? O que é ainda mais de salientar neste caso é que a BMI soube tirar muito bem partido das novas tecnologias, como o demonstra o facto de contar actualmente com 6500 clientes, uma subida de 50 por cento em relação ao ano anterior. No entanto, as receitas geradas pelos novos media foram ainda apenas de 15 milhões de dólares (pouco mais de 10 milhões de euros). Neste grupo, incluem-se formatos móveis, redes sociais e outros serviços online.

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