Procter & Gamble lança editora de Hip-Hop Tag Records para promover desodorizante

by Miguel Caetano on Agosto 20, 2008

TAG Records

Aqui há alguns meses atrás a multinacional norte-americana Procter & Gamble juntou-se à famosa etiqueta de Hip-Hop Def Jam Records para lançarem uma nova editora discográfica chamada Tag Records que é presidida pelo rapper e produtor Jemaine Dupri. O nome refere-se precisamente à linha de sprays corporais Tag da P&G. Tive conhecimento desta parceria destinada a conquistar o mercado do Hip-Hop através de uma edição recente do programa All Things Considered da estação pública de rádio norte-americana NPR que aborda justamente esta relação cada vez mais próxima entre a música e a publicidade e que contou com a participação de Eliot Van Buskirk do Listening Post.

Qual é a fronteira-limite que separa a música ou a arte em geral da publicidade? Mas será mesmo que ainda faz sentido estabelecer quaisquer limites numa altura em que as vendas de discos continuam a descer por aí em baixo – eu sei, eu sei, a “malvada pirataria” tem costas largas…? Estas são questões para as quais não existem respostas fáceis nem soluções uniformizadoras porque dependem da moral pessoal de cada um que as toma: o fã de música que decide descarregar álbuns completos a partir de um site de BitTorrent ou o artista que opta por “vender-se” a fabricantes de automóveis ao licenciar todas as suas músicas para spots publicitários.

Por mim, cada um é livre de fazer o que entende desde que deixe os outros serem igualmente livres. Por exemplo, se de repente uma banda decidir vender as suas músicas para refrigerantes, bebidas alcoólicas, marcas de cigarros, cadeias de fast-food e todas as empresas que lhe acenarem com um cheque depois não se admire que os seus fãs percam o interesse pelas músicas. Afinal de contas, a publicidade é apenas uma das múltiplas vias para um artista gerar dinheiro extra com a exploração comercial da sua música. Cinema, televisão e videojogos são outras.

Mas as coisas complicam-se ainda mais quando é uma marca comercial que decide lançar a sua própria editora como a Bacardi ou a Red Bull. Quem é que garante que os artistas que assinam contratos com essas “editoras” não são depois obrigados a compor canções sobre receitas de cocktails de rum ou os efeitos de uma bebida energética? Onde pára a liberdade artística?

No caso desta parceria entre a Procter & Gamble e a Def Jam, o primeiro artista contratado pela Tag Records foi Q (Kareem Savage). Este artista semi-desconhecido irá beneficiar de uma campanha promocional multmeios – imprensa, rádio, televisão, Internet – que nenhuma das quatro majors lhe poderia proporcionar caso ele tivesse optado por assinar um contrato com uma delas: "A maioria dos artistas recebe provavelmente um milhão de dólares para um orçamento de marketing. Os artistas TAG irão receber dez vezes mais do que as campanhas típicas de marketing proporcionam," explica Jermaine Dupri. Mas será que a contrapartida exigida para ter direito a esses orçamentos milionários é criar músicas que contenham apenas referências aos sprays corporais Tag?

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