EXGAE apresenta os oXcars, os Óscares da cultura livre

by Miguel Caetano on Setembro 29, 2008

Ao contrário dos portugueses que só querem saber da sua vidinha de todos os dias e que apenas reclamam para uma causa colectiva quando são directamente implicados na questão – um exemplo típico foi o coro de protestos gerados pelo encerramento do Btuga -, os nossos vizinhos espanhóis não têm medo em fazer erguer a sua voz bem alto contra os cartéis dos direitos de autor que, em nome de um conceito completamente ilusório chamado “Propriedade Intelectual”, querem impedi-los de partilhar a cultura que é de todos nós.

Em Maio falei aqui a respeito da criação da EXGAE, uma associação formada para defender todos os cidadãos espanhóis que já foram ou receiam vir a ser perseguidos pela Sociedade Geral de Editores e Autores (SGAE), que é a versão espanhola da Sociedade Portuguesa de Autores. Agora, a EXGAE decidiu organizar em parceria com a companhia teatral e promotora de eventos Conservas, uma iniciativa curiosa chamada oXcars. O evento assenta numa gala onde serão entregues “os 1ºs prémios internacionais da Cultura Livre da era digital”. Não obstante as críticas de alguns, penso que já fazia falta um prémio que destacasse a qualidade da quantidade no que diz respeito à música livre e à arte livre em geral.

Entre os participantes, contam-se nomes de projectos, entidades e personalidades com provas dadas no domínio da cultura livre como os suecos do Pirate Bay, o colectivo italiano Wu Ming Foundation, o grupo de produtores culturais e programadores de software livre Platoniq de Barcelona, o programador espanhol de aplicações P2P Pablo Soto, a fundação Blender – responsável pelo software opensource de animação em 3D com o mesmo nome -,  o grupo de programadores italianos de videojogos activistas Molle Industria e a organização de cineastas de cinema livre Free Cinema, entre muitos outr*s. Os preços dos bilhetes custam entre seis a 11 euros.

Nessa mesma semana e até ao dia 1 de Novembro estão ainda programados uma série de eventos como concertos, projecção de documentários, apresentações, debates, workshops, etc. Ao todo serão mais de 200 os participantes desta grande festa em nome da cultura e do conhecimento livre. No âmbito do programa, será também lançado o livro colectivo Los piratas son los padres (”Os piratas são os pais”) que poderá ser dentro em breve descarregado gratuitamente online ou adquirido em formato papel por três euros. Entre os autores, contam-se Richard Stallman, JaromilFranco “Bifo” Berardi, Juan Freire e Manuel M. Almeida que foi quem me informou dos oXcars por intermédio do seu blog Mangas Verdes.

No quadro de patrocionadores dos oXcars encontram-se organizações como o portal de música livre Jamendo, a Miró TV e a Telekommunisten de Dmytri Kleyner. Já agora, mesmo que não possam deslocar-se a Barcelona não deixem de ler o manifesto do evento intitulado “La Avaricia” (”A Avareza”). Deixo aqui a tradução de alguns excertos apenas para despertar o interesse:

Porque demonizam a cópia quando é a matéria de que é feita a aprendizagem?

Não vivemos isolados, vivemos em rede, em contínua comunicação; desde que nascemos e somos socializados absorvemos continuamento conhecimentos imitando, copiando e sampleando. Não há outra maneira de o fazer. O conhecimento dá-se pela imitação e pela cópia.

Assim se constitui o nosso imaginário cultural no qual nos inspiramos e que permite a criação de novas ideias, obras de arte, teorias, etc. Toda a criação cultural, toda a amplificação do conhecimento se baseia nesta tradição recebida, de maneira que nenhuma criação é completamente original nem seria possível sem a existência deste património colectivo.

(…)

É simplista e tendencioso dividir a população entre os que copiam e os que compram, quando todos fazemos ambas as coisas de tempos a tempos.

(…)

A possibilidade de copiar música da Internet e de me transformar num melómano faz com que me passe a interessar muito mais em frequentar concertos e em comprar os originais dos discos de que mais gostei. É apenas derivado ao delírio insaciável da indústria discográfica que se pode pensar que deveríamos ser obrigados a comprar os milhares de discos a que podemos aceder neste instante.

É falso afirmar que a partilha nos faz perder o apreço pelos criadores e pelos originais.

Por acaso o D. Quixote deixou de se vender quando entrou no domínio público? Por acaso deixou de se vender porque os pais puderam oferecer aos seus filhos cópia do livro que tinha sido dos seus avôs?

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