O Jogo da Cultura Livre Publicado 29 Set 08
Gosto muito dos jogos políticos da equipa de programadores, designers e artistas italianos da Molleindustria e apesar de estar bastante familiarizado com as ideias a que o Free Culture Game se refere, não pude deixar de ficar algo desanimado depois de ter passado alguns minutos a jogar este “jogo”.
Na verdade, talvez estejamos mais perante uma simulação educacional do que um jogo na acepção tradicional da palavra. Concebido em Flash, os gráficos são em duas dimensões, logo bastante simples. Existe um círculo chamado Commons em que o conhecimento é criado e partilhado cooperativamente sobre a forma de bolhas amarelas. Fora deste círculo está o Mercado onde o conhecimento é mercantilizado e vendido.
A nossa missão é através do cursor azul parecido com o logo da associação Creative Commons evitar que as ideias sejam devoradas por um boneco preto em forma de PacMan chamado vectorialista - uma referência ao conceito do capitalista da era da informação que McKenzie Wark conceptualiza no seu livro A Hacker Manifesto - que controla o mercado e ao mesmo tempo empurrá-las para os bonequitos verdes. Caso contrário, estes tornam-se cinzentos, isto é, consumidores passivos, e deixam de produzir novas ideias.
Um problema do jogo é que ele nunca acaba pois não é possível vencer nem perder. É claro que se isto é uma representação fiel do que realmente acontece no domínio da cultura - trata-se de facto de uma luta interminável, uma vez que nunca será possível uma privatização total do conhecimento partilhado, uma vez que as forças do Commons irão sempre resistir a este movimento de apropriação ao mesmo tempo que nunca será possível evitar por completo a cooptação das ideias inovadoras pelo mercado -, o que é facto é que em termos de experiência de jogo o resultado final não é lá muito apelativo.
Depois, mesmo a forma como as ideias estão representadas é demasiado abstracta. Teria sido melhor se a equipa do Molleindustria tivesse optado por exemplos mais concretos como uma música livre que gerasse várias remisturas ou em alternativa que fosse cooptada para um programa de grande audiência de uma cadeia de televisão sem referência ao autor original e sem lhe pagar um tusto ;-)
Mas como eu comecei por referir, a Molleindustria já nos habituou a jogos bem melhores do que este Free Culture Game, tanto em termos de jogabilidade como até de gráficos e de enredo. Querem provas? Que outro jogo nos dá a chance de vestir a pele de Jesus Cristo e desancar porrada a torto e a direito em Maomé, Buda ou até mesmo o próprio Deus senão Faith Fighter? Do mesmo, Mc The Game, dá-nos a possibilidade de dominar todos os truques sujos de uma empresa transglobal como a McDonalds. Já agora, experimentem jogar ao Tamatipico e digam lá se não vos parece uma representação satírica do dia-a-dia de muitos jovens adultos portugueses que se deixaram enredar nas malhas do emprego precário e flexível que mais não é do que uma forma suave de escravatura.
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