OberCom analisa hábitos musicais dos portugueses Publicado 21 Out 08

Para quem se queixa da falta de dados sobre os hábitos musicais dos portugueses, o Observatório da Comunicação (OberCom) acaba de disponibilizar um novo estudo intitulado “Entre o CD e Web 2.0: os consumos digitais de música em Portugal”. Neste documento de 111 páginas, encontramos entre os resultados dos habituais balanços anuais do negócio da música da Federação Internacional da Indústria Fonográfica (IFPI) e da Associação Fonográfica Portuguesa (AFP) e o repescar de dados recolhidos no segundo trimestre de 2006 no âmbito do inquérito nacional “Sociedade em Rede em Portugal”, uma série de informação que não é só nova mas também actual e relevante, o que não deixa de ser surpreendente…
Esta informação foi retirada de uma nova versão desse inquérito por questionário que se realizou durante o segundo trimestre de 2008. O estudo agora divulgado contou com a coordenação científica de Rita Espanha e Gustavo Cardoso que para além de ser investigador do Centro de Investigação e Estudos de Sociologia (CIES) do ISCTE, foi também o orientador da minha dissertação de mestrado em Comunicação, Cultura e Tecnologias da Informação no mesmo ISCTE. Outros investigadores que participaram na elaboração desta pesqisa foram Jorge Vieira, Rita Cheta, Maria do Carmo Gomes e Vera Araújo.
Alguns dados resultantes do inquérito de 2008 que considero que devem ser salientados dizem respeito aos hábitos da população portuguesa relativos à aquisição de conteúdos musicais (pág. 72 e seguintes). Assim, 14,7 dos inquiridos afirmaram realizar downloads de música contra os 10,1 por cento registados em 2006. No entanto, apenas 4.4% declarou adquirir downloads pagos - mas também, em 2006 essa percentagem era de 1,4! - e 6.9% afirmou não se importar de pagar para os adquirir, contra 49.2% que disseram que não estavam predispostos a pagar para fazer downloads de música.
Deste modo, se em 2006 a proporção de downloads não pagos/ilegais face aos downloads pagos/legais era de sete em um, dois anos depois parece que os downloads pagos conseguiram reduzir substancialmente essa diferença, resultando numa proporção de 3,3 para 1. Logo a seguir, ficamos a saber que 12,1 por cento dos inquiridos declararam partilhar música através da Internet. Embora não se saiba bem a que se deve essa distinção conceptual/ discrepância percentual entre downloads não pagos e partilha online, damos como adquirido que esta é a verdade. Por outro lado, também ficamos sem saber porque é que a percentagem de utilizadores de P2P não bate certo com a de quem admitiu já ter feito downloads ilegais, mas tendo em conta a distinção entre downloading e filesharing feita na página 33 vamos admitir que os investigadores do OberCom estão neste último caso a englobar os frequentadores de RapidShares, newsgroups da Usenet, messaging, etc.
O mais curioso, sobretudo, é que o estudo da OberCom permite-nos verificar uma forte diminuição da apetência dos portugueses pela compra de música em suporte físico: se em 2006, 15,5 por cento afirmaram comprar regularmente CDs (como se pode ler na página 57), em 2008 essa percentagem foi já de apenas oito por cento. Concomitantemente, a percentagem de compradores ocasionais cresceu dos 18 por cento em 2006 para os 30 por cento em 2008.
Quanto as razões invocadas pelos inquiridos para efectuar downloads ilegais, a primeira de todas foi - como é óbvio - o factor grátis com 77,7 por cento, seguido de muito de longe pelo facto de ser possível descarregar apenas uma música sem serem obrigados a comprar o álbum completo (23,5%). Surgem em seguida o facto das músicas-álbuns pretendidos não se encontrarem disponíveis à venda (11,8%) e por último a possibilidade de experimentar primeiro antes de comprar o disco (10,5%).
Outros dados interessantes que constam do estudo e que confirmam que outras pesquisas: quem descarrega músicas da Internet tende a gastar mais dinheiro por mês com música (pág. 97):
Os downloaders são não apenas o perfil de consumidor com maior proporção de compradores mensais (apenas 12% dos downloaders afirmar não realizar qualquer gasto mensal na compra de CDs contra pelo menos 18.5%-22% nos restantes perfis), como são os consumidores que tendem a gastar somas mais elevadas mensalmente na compra de CDs (35.5% dos downloaders gasta somam superiores a 25€, entre os quais 7% gasta somas superiores a 50€, face a proporções ligeiramente inferiores dos restantes perfis de consumidores para gastos no escalão 26-50€ e, de forma mais demarcada, no escalão
superior a 50€).Adicionalmente, é importante referir que os downloaders estão entre o grupo de consumidores que estão mais predispostos a pagar os valores mensais elevados para adquirir downloads pagos na internet (acima dos 20€ mensais, ou mesmo entre os 16-20€ mensais) e a reclamar menos que o acesso aos downloads legais seja gratuito (menos de metade dos downloaders face a mais de metade de todos os consumidores offfline e dos utilizadores de sistemas P2P).
Por último e só para acabar, convém também salientar que em 2006 a partilha e gravação de CDs entre amigos superava em muito os downloads e o P2P ilegais, situando-se nos 24,5 e nos 20,4 por cento respectivamente. Como os autores da pesquisa referem na conclusão, o mais natural é que este tipo de práticas centradas em suportes físicos venha a sofrer uma redução substancial a médio prazo, face a um inevitável crescimento dos suportes online. Apesar de não parecer, este research report contém muita informação útil. O mais difícil é encontrá-la, uma vez que não existe sequer um sumário ou uma conclusão que resuma os pontos essenciais.
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Interessante. Vou confessar que não liguei nenhuma inicialmente… Pensei que fosse mais um como o outro estudo sobre a blogosfera que o Obercom publicou há uns meses atrás (acho que tinha a ver com aquele Sociedade em Rede de que falas), que era uma autêntica nulidade.
Comentário de Filipe Marques em 22 Out 08 09:58.Espera lá… Esses números não batem certo: nada.
Se em 2008 14.7% dos inquiridos fazem downloads, e se 88% dos que fazem downloads também compram CDs regularmente, então, só em “downloaders”, 12.936% dos inquiridos compra regularmente CDs em 2008. Mas, noutro lado, diz-se que apenas 8% dos inquiridos compra CDs regularmente…
O que falha aqui? As minhas contas, o teu resumo, ou o estudo?
Comentário de Mind Booster Noori em 22 Out 08 11:22.@Mind_Booster_Noori: é importante notar que os downloaders representaram apenas 14,7 por cento dos inquiridos em 2008. Ou seja, constituem apenas um pequeno nicho. Por outro lado, esses 88 por cento que tu mencionas dizem respeito àqueles downloaders que afirmaram gastar algum montante até 15 euros mensais na aquisição de CDs. Não quer dizer que todos eles tenham respondido que adquirem regularmente CDs. Tratam-se de questões diferentes, julgo eu.
Comentário de Miguel Caetano em 22 Out 08 11:47.