Partilhadores britânicos receiam ser notificados pelos ISPs Publicado 13 Out 08

Numa altura em que só se ouve falar de crise por tudo quanto é lado, ainda há quem pense em vender às editoras discográficas a ideia de que vale a pena ameaçar os internautas para lhes extorquir os seus parcos recursos financeiros. O método destes consultores passa por recorrer a estudos manhosos pretensamente científicos mas que na verdade vêm carregados de banalidades e lugares-comuns.
Depois de em Março a Entertainment Media Research ter divulgado uma pesquisa segundo a qual 70 por cento dos inquiridos disseram que deixariam de fazer descarregamentos ilegais caso recebessem um aviso por email ou telefone do seu operador de acesso à Internet, a empresa de estudos de mercado acaba de divulgar alguns resultados preliminares do seu Digital Music Report de 2008 que apontam para que a percentagem de partilhadores que deixariam de partilhar caso fossem ameaçados pelo seu ISP tenha registado uma ligeiríssima subida, situando-se agora nos 72 por cento de acordo com a BBC e o The Guardian.
Acontece que desde Março até hoje passou-se muita coisa, em especial a assinatura do memorando entre seis ISPs e detentores de direitos que contou com a mediação do governo britânico. Nos termos deste acordo, os operadores de Internet comprometeram-se enviar cartas de aviso aos seus clientes que fossem alegadamente apanhados a descarregar conteúdos protegidos por direitos de autor.
O que seria de esperar era que esta campanha de intimidação tivesse contribuído para assustar um número muito maior de partilhadores, o que de facto não sucedeu. Outro exemplo de wishful thinking em que os autores deste estudo e os jornalistas se deixam cair é quando se lê que 61 por cento dos que admitiram fazer downloads ilegais disseram que acreditavam que estavam a ser monitorizados pelos seus ISPs. Ora, estes 61% não querem dizer nada se não sabemos qual foi o valor dessa percentagem no ano passado. E mesmo que os internautas tenham a noção de que estão a ser “vigiados”, ficamos sem saber se eles já tomaram algumas medidas no sentido de evitar essa vigilância (encriptação de dados, darknets, etc.)
Mesmo assim, este inquérito realizado em co-autoria pela EMR e a firma de advogados Wiggin a uma amostra de 1500 internautas britânicos entre os 13 e os 60 anos de idade durante o mês de Julho traz ainda algumas boas notícias para a indústria discográfica: o número dos que afirmaram recorrer a downloads ilegais diminuiu dos 43 por cento registados na edição de 2007 do mesmo estudo contra 39 por cento verificados agora. Contudo, esta percentagem sobe para os 58 por cento na faixa etária entre os 13 e os 17 anos de idade.
Quanto aos que disseram terem já descarregado ficheiros de música de serviços online legais, a percentagem foi de 51 por cento, uma subida de quatro pontos percentuais face aos 47 por cento registados no ano passado. A propósito destes dados, Alexander Ross, music partner da Wiggin, apenas consegue dizer uma meia dúzia de clichés e platitudes:
Este inquérito revela que, não obstante a ubiquidade da música grátis, os consumidores estão realmente dispostos a pagar por produtos musicais se o pacote fornecido for adequado.
Óbvio!! Como é que nunca ninguém pensou nisso antes? “Se as editoras discográficas disponibilizarem às pessoas algo que elas desejam, a um preço que elas estejam dispostas a pagar, elas acabarão por comprar.” O senhor Ross é realmente um grande génio. Descobriu a pólvora! O que é preciso é que a indústria da música vá nessa conversa, uma vez que os últimos oito anos mostram que elas ainda não chegaram lá.
Por último, quem comprar o Digital Music Report 2008 pode também ficar a saber porque é que o YouTube ultrapassou o MySpace nas preferências dos britânicos em termos de redes sociais - 41 por cento para o site de partilha de vídeos contra 25 por cento para a subsidiária da News Corp. Uma pista: não será porque o interface branco do YouTube é muito mais apelativo do que as cores berrantes e os GIFs animados do MySpace, já para não falar na importância do vídeo em detrimento dos conteúdos “estáticos”?
Nota: a imagem que acompanha este artigo está disponível aqui segundo uma licença CC-BY-NC 2.0 e pertence a unsure shot.
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