Acorrentados aos contratos de 360 graus Publicado 11 Nov 08
Para além de ter tecido rasgados elogios à Apple por ter conseguido unir um design sexy a um serviço de música online, o patrão da Warner Music Group Edgar Bronfman Jr. aproveitou ainda a Web 2.0 Summit para fazer algumas revelações a respeito do novo modelo de contratos que a sua editora tem vindo a implementar ao longo dos últimos anos.
Segundo Bronfman Jr., cerca de 1/3 dos artistas do catálogo da WMG já se encontram abrangidos pelos contratos de 360 graus. Como eu expliquei aqui, estes acordos abrangem todas as fontes de receitas capazes de serem geradas pelos artistas. Deste modo, a editora garante não só uma percentagem sobre as vendas de discos mas igualmente sobre os bilhetes de concertos, licenciamento de músicas para bandas sonoras de filmes, televisão e anúncios publicitários, bem como de todas as outras fontes de receitas possíveis e imagináveis que a banda possa vir a gerar.
Outro dado importante adiantado por Bronfman Jr. e salientado por Michael Arrington do TechCrunch é que a gravadora exige que todos os seus novos artistas assinem contratos de 360 graus. Partindo do princípio de que mais de 80 por cento dos artistas de uma major nunca dão lucro, a ideia de acorrentar os artistas a esta nova forma de escravatura soft faz todo o sentido para uma gravadora. Afinal de contas, para maximizar os lucros é preciso mitigar ao mínimo os riscos, não é?
Desta forma, as majors pretendem assim converter-se em capitalistas de risco dos artistas que, por sua vez, se vêem assim transformados em startups. Uma vez que os CDs deixaram de ser a galinha de ovos de ouro da indústria, há que diversificar ao máximo as receitas. As bandas recebem dinheiro da editora para gravar um disco e promovê-lo e esta tem direito a receber uma comissão da “empresa” em que investiu.
Mas como já se sabia, o que é vantajoso para as editoras pode ser muito perigoso para os artistas. Daí que muitos artistas reputados que já têm uma carreira estabelecida não estejam propriamente para aí voltados e optem por assinar contratos de 360º com empresas dispostas a dar-lhes montes de dinheiro (veja-se o negócio de Madonna com a promotora de concertos Live Nation ou dos Groove Armanda com a Bacardi).
É claro que para bandas que estão agora a começar e não percebem nada de como funciona o mundo da música, os contratos de 360 graus dão bastante jeito, uma vez que evitam ter que lidar com toda a burocracia e conseguem muito mais facilmente chegar à rádio, à televisão e aos jornais graças às “relações privilegiadas” que os departamentos de marketing das discográficas possuem com os media tradicionais.
E a verdade é que a rádio e a televisão continuam a ser os principais meios de contacto com a música, principalmente em países atrasados a nível de banda larga como é manifestamente o caso de Portugal, como se pode concluir pela leitura do estudo recente do OberCom sobre os hábitos de consumo musicais dos portugueses (pág. 73)
Relativamente às principais fontes de conhecimento de novos temas musicais, para o conjunto da população portuguesa, os media tradicionais são ainda as fontes principais, em 1º lugar a rádio (73.2%, ou seja, para cerca de 3/4 dos portugueses) e em 2º lugar a Tv (41.5%). Seguem-se as fontes interpessoais - amigos e conhecidos evocados por cerca de 1/5 dos inquiridos (20.2%) - e apenas 1 em cada 10 portugueses referiu a internet como fonte de conhecimento de músicas novas (10%), a par das lojas de música (8.2%).
Na verdade, este cenário também se verifica nos próprios Estados Unidos, um dos mercados onde o sector da música digital se encontra mais desenvolvido. Por mais YouTubes, MySpaces, Imeems e torrents que existam, desmantelar toda a maquinaria bem oleada erguida à volta da indústria discográfica ao longo das últimas décadas é bem mais complicado do que à primeira vista se afigura.
E mesmo que por agora seja bastante fácil montar uma campanha de promoção de marketing viral assente no YouTube e noutras redes sociais e chegar a dezenas ou mesmo centenas de milhares de pessoas, dentro de alguns anos será muito mais difícil porque a concorrência será muito maior. Por conseguinte, as chances de um artista fazer com que o seu trabalho se destaque dentro da massa de outros talentos em potência serão muito menores e pode muito bem ser que os que se tornem conhecidos sejam os que possuam menos talento. Ou seja, regressaremos à estaca zero em que apenas os artistas que possuem o apoio de uma equipa dedicada de profissionais irão conseguir singrar na música.
Então o que fazer diante disto? Abdicar de todos os nossos direitos e deixarmo-nos acorrentar a contratos discográficos que impõem a concessão de licenças exclusivas durante períodos de cinco ou mais anos, transformando-nos assim em autênticos escravos de outrem? Ou, em alternativa, tentar fazer carreira por nós próprios e sem a ajuda de ninguém, recorrendo apenas às ferramentas da Web social, e rezar para que hajam pelo menos mil pessoas no mundo que gostem da nossa música a ponto de estarem dispostas a desembolsar dinheiro por todos os produtos que lançarmos? Talvez uma solução intermédia passe pela assinatura de contratos com marcas comerciais apenas para a edição e gravação de singles a serem distribuídos gratuitamente via online. Mas aí a vantagem competitiva das majors desaparece por completo… Porque não aliar-se a uma bebida energética ou a uma marca de desodorizantes?
Nota: a imagem que acompanha este artigo está disponível aqui segundo uma licença CC-BY-NC-ND 2.0 pertence a [auro]
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Miguel, não concordo contigo neste ponto:
“[...] principalmente em países atrasados a nível de banda larga como é manifestamente o caso de Portugal [...]”
Portugal é um dos mais avançados na largura de banda larga. Mais que o Reino Unido até. Não sei se te referes aos hábitos dos portugueses relativamente na sua utilização, mas não estamos nada atrasados relativamente à velocidade da Internet.
http://www.worldpoliticsreview.com/Images/commentarynews/broadbandspeedchart.jpg
SDL
Comentário de Sérgio Dinis Lopes em 12 Nov 08 00:25.Sérgio: vais-me desculpar mas isso é treta. Esses dados devem com certeza basear-se na velocidade contratada das ligações e não da velocidade real da banda larga. Para dados mais fidedignos, aconselho-te a leitura destes dados de uma pesquisa patrocinada pela Cisco com base em registos de testes de velocidade do Speedtest que nos colocam mesmo no limiar do razoável. Atrás da Áustria e à frente da Eslováquia e do Reino Unido.
Depois há outro factor bastante importante, como tu indicas: o facto de existir oferta, não quer dizer que haja procura. Não só a média de horas de utilização diária da Internet deve continuar a ser ainda bastante medíocre como a percentagem de utilizadores não deve ser por aí além em termos comparativos.
Comentário de Miguel Caetano em 12 Nov 08 00:58.[...] do grupo de estações de rádio Clear Channel promete é quem tem conseguido mais sucessos com os contratos de 360 graus ou pelo menos de 180 graus. Os acordos milionários com Madonna e Jay-Z abrangendo uma série de [...]
Comentário de Live Nation: da promoção de concertos para a venda de MP3s | Remixtures em 12 Nov 08 23:58.