Antigo empresário dos Pink Floyd acusa iTunes de ter matado o álbum

by Miguel Caetano on Novembro 22, 2008

Pelos vistos, ainda existem muitos saudosistas do antigo modelo dominante da indústria discográfica em que as pessoas eram obrigadas a pagar o preço de um álbum inteiro apenas para poderem ouvir duas a três músicas de jeito. O mais surpreendente é que esta posição venha da parte de alguém como Peter Jenner, antigo empresário dos Pink Floyd e de Syd Barrett, que defende que os direitos de autor precisam urgentemente de uma reforma

Numa conferência organizada esta semana em Londres pela associação Music Tank, Jenner – que foi também responsável pelas carreiras de Marc Bolan, The Clash, Ian Dury e actualmente Billy Bragg – teceu duras críticas ao iTunes, Segundo ele, como se pode ler na Music Week, ao permitir a venda individual de singles em separado dos álbuns, a loja de música online da Apple teve efeitos desastrosos para a indústria discográfica: “Converteu um produto que valia dez libras, o álbum, num produtos que vale actualmente 1,60 libras, o preço dos dois singles que vale a pena comprar.”

Da mesma opinião também parece ter sido Simon Wheeler, director da divisão digital da editora independente Beggars Group: “Para bem ou paral  mal, o iTunes fixou uma tarifa para os downloads individuais que retirou poder aos detentores de direitos.” Ou seja, segundo Jenner e Wheeler teria sido bem melhor se os consumidores tivessem coninuado a ser obrigados a gastar montes de dinheiro por material que não tem qualidade. Tudo para benefício de executivos, empresários e advogados de estrelas Rock e grandes editoras discográficas, que assim teriam conseguido manter o seu estilo de vida faustoso.

O que eles se esqueçem é que se não fosse a Apple e o iTunes, a indústria dscográfica teria ainda perdido mais dinheiro do que perdeu graças às alternativas grátis facilmente acessíveis através de redes de partilha de ficheiros. Mas na verdade, a posição de Peter Jenner também não é muito de admirar, se tivermos em conta que o modelo que ele advoga para resolver o problema da ‘pirataria’ é uma espécie de um imposto universal a cobrar a todos os utilizadores da Internet dando em troca o direito de descarregarem todas as músicas que quisessem por mês.

Segundo este esquema, todos os detentores de direitos (editoras discográficas, publishers, compositores, músicos, empresários) seriam obrigados a participar no serviço.  É claro que isto oferece grandes vantagens para as editoras discográficas independentes em comparação com os clubes privados formados entre as majors e algumas empresas (veja-se o caso do Datz Music Lounge), uma vez que têm também direito a receber uma parte do bolo total das receitas geradas. Mas em compensação, o incentivo na criação de novo serviços de música online diminuiria drasticamente, como refere Andrew Orlowski no The Register. Por outro lado, a indústria discográfica deixaria de ter tanto interesse em apostar em novos artistas porque sabia de antemão que já tinha o retorno do seu investimento. Bastava limitar-se a viver dos fundos de catálogo.

Nesse sentido, parece-me que o modelo advogado por Paul Sanders, fundador da empresa PlayLouder sobre a qual eu já falei aqui e aqui, faz mais sentido na medida em que se baseia num sistema de P2P voluntário e opcional.

Nota: a imagem que acompanha este artigo está disponível aqui segundo uma licença CC-BY-NC 2.0 e pertence a johann paul keller

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