Em defesa de uma nova classe média musical Publicado 20 Nov 08

Querem uma boa receita para gerar hype até mais não em torno de uma startup que vende serviços de marketing online para músicos e artistas que não querem saber ou não sabem nada de redes sociais, blogs e widgets? É fácil. Basta ser amigalhaço dos bloggers mais influentes de Silicon Valley e dar uma conferência repleta de clichés repetitivos do tipo “As editoras morreram!” que não apresentam qualquer solução para os problemas da esmagadora maioria dos músicos e bandas em início de carreira que querem que as suas músicas cheguem a um número suficiente de pessoas via MySpace, YouTube, Last.fm, etc. - ou seja, basicamente milhões de artistas esfomeados espalhados por todo o mundo.
Exemplos? “O Poder passou das mãos da editora para o artista”, “Artistas: façam um contrato de 360 graus com vocês próprios”, “Não há nada de errado com o negócio da música. Há algo de errado com o negócio de CDs.” Está bem, esta última frase não é da autoria de Ian Rogers mas sim de Chuck D. dos Public Enemy mas vocês percebem a mensagem: o velho modelo centrado na venda de CDs e suportes materiais fabricados em massa a um custo elevado que exigia o recurso a intermediários como as editoras discográficas está a morrer para dar lugar a um novo modelo centrado numa relação directa entre o artista e o fã. Daí que não interessa para nada saber se o crescimento das vendas digitais compensa ou não a quebra das vendas físicas.
Rogers é aquele geek de oculhinhos que saiu do Yahoo Music para se tornar director executivo da TopSpin Media, uma empresa sobre a qual já escrevi aqui e aqui que fornece soluções tecnológicas como sites, widgets e subscrições para uma nova classe média de artistas que estão fartos de estarem agarrados a contratos restritivos com editoras discográficas e querem enveredar pela autopublicação ao estilo Radiohead e Nine Inch Nails - que curiosamente usaram os seus serviços para distribuir The Slip -, assim como para os artistas em início de carreira que não sabem para onde se virar.
No início deste mês, Rogers fez uma apresentação durante a conferência GRAMMY Northwest MusicTech Summit 2008 e esta semana ele disponibilizou no blog da TopSpin o texto e os slides. A coisa foi divulgada pelo TechCrunch, o que gerou um rol de comentários tanto a favor como contra a visão optimista e utópica de Rogers.

Para além da retórica muito “Web 2.0″ que impregna todo o texto, podemos encontrar no discurso de Rogers alguns vislumbres do que ele considera ser essa nova classe média musical. Um dos exemplos que ele dá é o de Everything That Happens Will Happen Today, o novo disco de David Byrne e Brian Eno que como eu refere aqui foi distribuído inicialmente apenas por via digital através do site e por intermédio de um widget que podia ser copiado e colado em qualquer página da Web. Os utilizadores puderam não só escutar todas as músicas completas do álbum como também descarregar um MP3 em troca da cedência do endereço de email e comprar o disco no formato digital, digital + CD ou digital + caixa.

A experiência correu bastante bem: 50 dias após o lançamento após o início, o projecto já tinha alcançado o equivalente em receitas brutas ao adiantamento que uma editora tradicional pagaria pelo disco, dias antes do disco chegar ao iTunes e à Amazon e semanas antes dos CDs começarem a ser distribuídos. Outro indicador favorável diz respeito à campanha de marketing permissivo via email: 50 por cento das pessoas que receberam mensagens abriram-nas e 37 por cento das vendas tiveram origem nos emails. Melhor ainda: 20 por cento do número de reproduções das músicas resultaram em compras.
Mas não será um pouco desonesto usar o nome de David Byrne e Brian Eno como um exemplo para o futuro da indústria musical, tendo em conta que se tratam de artistas com uma carreira consolidada com o apoio das grandes editoras? De forma a combater este argumento, Rogers dá ainda o exemplo de Joe Purdy, um artista relativamente desconhecido nos seus 20 e muitos anos que conseguiu comprar uma casa apenas à custa de 650 mil singles vendidos no iTunes.
A questão é que Purdy é, tal como Jonathan Coulton e Brad Sucks, um caso de sucesso entre milhões que lutam pelo mesmo objectivo. É claro que a diminuição dos custos de composição, gravação e promoção de músicas permitem já hoje em dia que qualquer pessoa crie os seus temas num computador portátil a partir do seu quarto e os divulgue no MySpace, Last.fm, SoundCloud, Jamendo, VIRB, ReverbNation, YouTube, etc. Mas isso apenas significa que o nível de concorrência irá aumentar significativamente. Quem não usufruir do apoio da máquina de marketing de uma editora ou marca (operadora ou fabricante de telemóveis, bebida energética, desodorizante, etc.) não será pura e simplesmente ouvido.
O que a Internet oferece aos artistas desconhecidos é a promessa de construir uma audiência global e de tirar partido das oportunidades onde quer que elas se encontrem sem ser necessário ficar acorrentado durante anos a fios a uma empresa que está mais interessada em criar valor para os seus accionistas do que na arte. Mas como Bruce Houghton refere no Hypebot, para chegar a tal terra prometida por Ian Rogers e outros gurus da Web 2.0 é preciso trabalhar muito, esforçar-se muito e é também preciso estar ciente de que nem sempre o sucesso acaba por bater à porta. Mas há definitivamente espaço para uma nova classe média musical que quer ter apenas o suficiente para viver condignamente, sem ter pretensões de fazer fortuna.
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Comentário de Em defesa de uma nova classe média musical - Ponto Livre em 3 Dez 08 14:33.