Será a Cauda Longa um mito?

by Miguel Caetano on Novembro 10, 2008

Cauda Longa

A teoria da Cauda Longa foi avançada por Chis Anderson, editor-chefe da Wired, num artigo da revista e mais tarde desenvolvida num livro com o mesmo nome que se encontra disponível em português. Como eu já aqui referi, Anderson recorre a alguns dados obtidos a partir do serviço de subscrição de música online com DRM Rhapsody para sustentar que a passagem para o digital permite que os retalhistas de conteúdos como música e filmes possam vender “mais do menos” ao permitir uma eliminação ou pelo menos redução substancial dos custos de armazenamento dos artigos.

Para além disso, esta transformação permite que as lojas de comércio electrónico disponibilizem um número bastante superior de itens em catálogo na medida em que haverá sempre procura para todos os tipos de nichos de mercado, mesmo os mais obscuros. O resultado final seria assim um gráfico com a forma de uma cauda longa, em que a causa seria mais valiosa que o “focinho”. Dito de outro modo, o mercado deixaria automaticamente de estar tão concentrado nos grandes êxitos.

Mas um estudo recente do economista Will Page da sociedade britânica de gestão colectiva de direitos de autor MCPS-PRS Alliance em conjunto com Gary Eggleton e Andrew Bud – fundador do fornecedor de serviços de música móvel Mblox – publicado no The Register veio lançar ainda mais cepticismo perante uma teoria já de si bastante debilitada devido aos ataques de inúmeros detractores.

Recorrendo a dados relativos a um serviço de música online não identificado, Page concluiu que 80 por cento  do catálogo digital não vendeu qualquer cópia. Em termos gráficos, isto representa uma curva de distribuição clássica, característica das lojas de discos tradicionais onde os poucos êxitos rendem a maioria do dinheiro. Ou seja, as vendas estão concentradas em apenas 20 por cento do catálogo. Como se isto não bastasse, 80 por cento das receitas sobre estas vendas foram geradas por 52 mil músicas, o que equivale a mais ou menos quatro mil CDs. Coincidência ou não, em média uma loja de discos convencional costuma ter espaço para quatro mil CDs.

Numa entrada publicada no seu blog, Chris Anderson sacorde a água do capote e refere que sem saber a que loja ou serviço de música digital é que estes dados dizem respeito não é possível retirar grandes ilações destes dados. Mas o que o estudo de Page e companhia bem como outras críticas da teoria da cauda longa – entre as quais uma pesquisa anterior de Anita Elberse, professora associada da Harvard Business School, que aponta igualmente para uma continuidade da preferência dos consumidores pelos êxitos de vendas no sector digital – ignoram é que eles se baseiam em dados relativos ao serviços legais de música digital que até há bem pouco tempo estavam acorrentados a medidas de protecção tecnológica como as DRMs.

Como Gerd Leonhard refere muito bem, não se pode realizar uma análise séria das tendências actuais do consumo de música digital se apenas levarmos em linha de conta as vendas do iTunes e de outras lojas de música online que apenas disponibilizam ficheiros WMA com DRM e fizermos de conta que o P2P e os outros serviços de streaming grátis não existem.  

O recurso a tecnologias de DRM e o preço razoavelmente elevado de cada download individual inibem de facto a descoberta de música nova. Não admira por isso que os consumidores se sintam poucos tentados a fazer grandes experiências e em afastar-se de “águas seguras” em busca de novas sonoridades. Muito mais interessante seria analisar a distribuição dos downloads de ficheiros disponibilizados a partir de redes de partilha de ficheiros.

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