Recapitulando (III): Indústria Musical

by Miguel Caetano on Dezembro 15, 2008

Continuando com a minha revisão da matéria não dada e porque toda a estória tem um começo e um fim, pretendo abordar nesta entrada o que de mais significativo se passou no campo da indústria musical. Se se recordam, na primeira parte escrevi sobre a MAPINET e a emenda 138, tendo na segunda abordado o P2P e a partilha de ficheiros em geral. Agora, chegou a vez de referenciar o que se passou no sector da música digital, tanto de bom como de mau. Mais do que estar sempre a criticar as editoras, interessa-me também apresentar os exemplos positivos que vão ocorrendo pelo mundo e que podem ser adaptados dentro de portas.

Em apenas duas a três semanas, a Amazon lançou a sua loja de MP3 no Reino Unido, a Warner Music mostrou as suas contas e voltou à carga com o seu plano de salvamento para a indústria discográfica, o MySpace Music ganhou um CEO, começou a surgir mais música sem DRM no iTunes e ficou-se a saber que o iLike está com graves problemas financeiros… Por outro lado, o número de novos serviço de Música 2.0 não parou de aumentar.

MP3s da Amazon chegam ao Reino Unido

Demorou mas foi. No início de Dezembro, sem grande alarido por parte da empresa de comércio electrónico a loja de MP3 da Amazon chegou finalmente às terras de Sua Majestade, mais de um ano depois do lançamento nos Estados Unidos. Tal como nos EUA, as mais de três milhões de músicas encontram-se disponíveis em formato MP3 sem DRM com bitrate de 256 Kbps. O preço de cada faixa começa nos 59 pences (66 cêntimos), podendo chegar em alguns casos aos 80 pences (90 cêntimos). Recorde-se que o iTunes UK vende cada música ao preço único de 79 pences. Quanto aos álbuns, as novidades andam à volta das 6,49 libras (7,30 euros). Mas também se podem encontrar por lá álbuns a duas ou mesmo três libras ( 2,25 euros e 3,40 euros respectivamente). Em suma: preços variados bem ao gosto das majors. Quem se tramam são as independentes, cujos artistas raramente aparecem destacados.

Mais música sem DRM começa a chegar ao iTunes Plus?

Os boatos de que o iTunes está prestes a integrar o catálogo digital da Universal Music, Warner Music e Sony Music no seu serviço de música sem DRM não param de circular. O francês ElectronLibre garante mesmo que na loja do serviço da Apple na França já é possível adquirir músicas de Neil Young (Warner). Ao todo, deverão ser cerca de 8,5 milhões de referências. O processo deverá prolongar-se pelas próximas semanas. Mas há quem considere essa informação um pouco duvidosa.

O presidente do MySpace Music

Courtney Holt, presidente do MySpace Music
Confirmando os boatos que circulavam a este respeito há já algumas semanas, o MySpace anunciou a 26 de Novembro a designação de Courtney Holt, antigo executivo da divisão de música digital MTV, para chefiar a joint-venture criada em parceria entre a subsidiária da News Corp. e as quatro majors do disco. O presidente da plataforma de música deverá começar a exercer funções a 6 de Janeiro. A Billboard explica que o processo levou mais tempo do que o esperado porque os candidatos mostraram relutância em chefiar uma empresa com tantos patrões. Podem ler aqui uma entrevista a Holt quando ele ainda pertencia à MTV.

Paul McCartney não se importa lá muito que as músicas dos Beatles não estejam à venda no iTunes

Paul McCartney

Parece que não é tão cedo que as músicas dos Fab Four vão parar à loja do iTunes, a avaliar com uma entrevista recente de Paul McCartney à Billboard que veio assim enterrar pelo menos durante um bom tempo todos os rumores que circulam a este respeito. Mas desta vez a culpa não é de Steve Jobs mas sim da EMI. A antiga editora de McCartney parece querer uma percentagem maior sobre as vendas do que os representantes dos Beatles estão dispostos a ceder. O músico aproveitou ainda para dizer que as editoras não sabem o que é que andam a fazer. Seja como for, quanto mais tempo esperarem, menos importância terá a chegada dos Beatles ao iTunes.

De qualquer modo, isso não parece ser algo que importe muito a McCartney. Em declarações ao Daily Express, o ex-Beatle revelou que não se importava muito com os downloads ilegais: “[O conceito de downloads] é estranho para mim. Não estou nessa onda. Sou ainda daqueles que vai à loja e compra um LP de 45 rotações. Passámos da era do vinil, das cassetes e dos CDs – é tudo o mesmo só que agora as pessoas não pagam pela músico. Não me importo com isso.” Aliás, tanto ele não se importa que decidiu imitar em parte os Radiohead para o primeiro disco do seu projecto The Fireman em parceria com Youth intitulado Electric Arguments. Com a ajuda da TopSpin,  ele decidiu lançar no site uma versão digital em formato digital sem DRM (MP3 320 Kbps, Apple Lossless ou FLAC) por nove dólares (6,65 euros). Quem quiser pode ainda comprar o pacote CD+digital por 13 dólares (9,60 euros), outro pacote vinil+ digital por 30 dólares (22,20 euros) ou uma Edição Limitada de Luxo por 80 dólares (59,20 euros). (foto de slagheap segundo licença CC-BY 2.0)

Warner Music regista subida dos lucros mas crescimento das vendas digitais abranda

Apesar dos lucros líquidos da WMG terem subido para seis milhões de dólares no quarto trimestre fiscal de 2008 em comparação com o mesmo período do ano anterior, as receitas desceram 1.5 por cento dos 867 para os 854 milhões de dólares (dos 641 para os 632 milhões de euros). Mas o que indica mais o sarilho em que a Warner Music se encontra é o facto das vendas digitais terem subido apenas 28 por cento, representando 167 milhões de dólares (123,60 milhões de euros). Digo apenas porque este já é o segundo trimestre consecutivo que os downloads registam um ritmo mais lento de crescimento: de 48 por cento no segundo trimestre para 39 por cento no terceiro para os actuais 28 por cento. Mesmo assim, o digital representa 20 por cento das receitas totais da Warner, o que é a percentagem mais elevada das quatro majors. Os resultados financeiros podem ser lidos aqui.

…e volta a impingir licença compulsória global para a livre partilha de ficheiros às Universidades americanas

Como os downloads digitais vendidos à unidade estão a dar sinais de esgotamento, a Warner Music Group voltou à carga com o seu plano para propor uma tarifa plana compulsória para os estudantes universitários a acrescentar às propinas pagas à universidade para ter direito a descarregar música sem DRM a partir de P2P, iTunes ou Rapidshare. A iniciativa já tem nome, Choruss, e conta com o apoio da EMI e da Sony Music. A única que não alinha para já é a Universal Music. Quem também já deu o aval foi a RIAA. A EFF, por seu lado, manifestou um optimismo cauteloso.

Se estão lembrados, a ideia começou em Março quando a WMG contratou Jim Griffin para implementar o seu plano para monetizar a anarquia – isto é, legalizar o P2P – que ele já vinha a defender desde 2004. Na semana passada, o Techdirt tornou pública uma apresentação que contém alguns dos elementos fundamentais do plano que passa pela criação de uma organização independente não lucrativa encarregada de licenciar o catálogo das editoras, recolher o dinheiro das universidades e dos ISPs e distribui-lo por entre os detentores de direitos. Segundo a Wired, o valor a cobrar por mês a cada estudante para descarregar MP3s sem correr o risco de ser processado pela RIAA daria cerca de cinco dólares.

Caso esta licença seja compulsória – e não voluntária -, como tudo indica, isso irá representar qualquer coisa como 700 a 800 milhões de dólares. Esse montante poderá mesmo ascender aos milhares de milhões caso o serviço seja alargado a todos os ISPs. Mas aquilo que no papel parece ser bastante vantajoso para todas as partes na verdade não passa de uma forma muito conveniente de implementar um imposto universal a todos os estudantes – independente de eles descarregarem ou não música via Internet – para vantagem das grandes editoras sem que estas tenham que fazer absolutamente nada. Ora que rico modelo de negócio: quer apostem ou nem em novos talentos, é sempre dinheiro certo em caixa! Mike Masnick do Techdirt explica porque é que este tipo de imposto é uma má ideia. Pista: as editoras discográficas tornaram-se praticamente inúteis.

iLike: de mal a pior

iLike

Quem o viu e quem o vê. Tal como o Imeem, outro fenómeno da Música 2.0 que se viu subitamente em tão maus lençóis que já começou à procura de potenciais compradores, também o iLike chegou à conclusão que ter uma plataforma autónoma de streaming de música online não dá dinheiro tendo em conta os elevados custos de licenciamento do catálogo das majors.

No dia 24 de Novembro surgiu o rumor de que o serviço de música que é bastante popular entre os utilizadores do Facebook especialmente devido aos seus widgets está a tentar encontrar alguém interessado em comprá-lo. Entre os potenciais compradores encontram-se a empresa de venda de bilhetes online Ticketmaster, que já possui 25 por cento da companhia, e a RealNetworks. Outra hipótese é o próprio Facebook, uma vez que este já manifestou estar interessado em lançar um serviço de música online.

Como se isto não fosse suficiente, no início do mês ficou-se a saber que a Sony Music e a Warner Music Group começaram a  impedir o streaming completo das suas músicas do site. O motivo do bloqueio deve-se ao facto do acordo estabelecido em Julho passado entre o iLike e a Rhapsody, de modo a possibilitar a reprodução completa e grátis de até 25 temas por mês. Segundo as editoras, o licenciamento do seu catálogo com a Rhapsody não não era suposto incluir sites terceiros. Que dizer, são as agruras da música 2.0!

Os mais vendidos no iTunes e os mais escutados na Last.fm e, 2008: Coldplay em toda a linha

Coldplay - Viva La Vida

Palavras para quê? É uma banda ao gosto popular. Os Coldplay conseguiram a proeza de ser a banda responsável pelo álbum mais vendido no iTunes em 2008 (Viva La Vida ), bem como de obter a segunda posição na lista dos singles mais vendidos com o tema-single retirado do mesmo single, ficando apenas atrás de Leona Lewis (”Bleeding Love”). O ranking dos 10 mais pode ser consultado no Hypebot. Do mesmo modo, o disco da banda de Chris Martin conseguiu também a proeza de colocar seis músicas na lista das dez mais escutadas pelos utilizadores da Last.fm.

Se este Top tivesse sido feito para 2007, quase de certeza que os Radiohead também teriam dominado. Quem também tem uma forte presença na lista são os MGMT, que contam com três temas no Top. É impressionante como é que mesmo no mundo da música online os artistas mais do agrado do gosto popular continuam a dominar. Qual cauda longa, qual quê! Ah, e convém relembrar que não se tratam das “melhores” músicas do ano mas sim das mais populares.

Toca a vender os vossos MP3s usados!

Bopaboo

Das duas uma: ou o Bopaboo é um fake humorístico extremamente bem montado ou a empresa por detrás deste site que visa vender MP3s usados tem um modelo de negócio um tanto ou quanto estranho mas que caso funcione pode vir a tornar-nos a todos milionários. É o negócio da China! Se têm alguns milhares de MP3s no vosso disco rígido que não estão a ser usados, que tal colocá-los à venda no mercado de usados do Bobaboo?

É claro que os regulamentos do site, actualmente ainda em modo privado nos Estados Unidos, afirmam que apenas permitem a venda de ficheiros MP3 adquiridos legalmente. Os responsáveis pretendem assim resguardar-se de eventuais complicações legais invocando o direito à revenda de fonogramas instituído no Copyright Act dos EUA. Afinal, se podemos vender os CDs que comprámos, porque não um ficheiro de música?  Mas a verdade é que eles não dispõem de quaisquer meios para verificar se a música disponibilizada pelos vendedores proveio do iTunes ou do eMule ou BitTorrent. Do mesmo modo, o site exige que o utilizador apague todas as cópias do seu disco a partir do momento da venda, mas mais uma vez tudo depende da “boa fé” do vendedor.

Seja como for, quem quiser pode encontrar MP3s por um preço a partir dos 25 cêntimos. Desse dinheiro, 80 por cento vai para o seu bolso e 20 por cento para os cofres da Bopaboo. Para além das enormes complicações legais, o Bopaboo é uma ideia engraçada que põe a nu as incongruências de quem grita a sete pés de que a partilha de música digital para fins não comerciais é um acto de pirataria. O problema está no facto de inevitavelmente a Bopaboo ter que fazer uma cópia do ficheiro para os seus servidores. Agora, quanto tempo é que acham que vai levar até que a RIAA processe a companhia?

QTrax assina acordo com Sony

Quem ficou a ganhar foi o Qtrax, o serviço de P2P legal e grátis de música financiado por publicidade, que conseguiu obter um acordo de licenciamento com a Sony. Isto depois de ter conseguido negócios semelhantes com a EMI e a Universal Music. Agora, a única das quatro grandes que fica a faltar é a Warner Music.

CURTAS:

  • MSN Unsigned: Microsoft abre site para artistas sem editora no Reino Unido (via Listening Post).
  • Compositores franceses vão receber dinheiro da publicidade do DailyMotion (via Numerama).
  • Artistas do Sellaband vão dar concertos pelos EUA no Verão de 2009. No âmbito do projecto ArenaFest, vão ser escolhidas 18 bandas para darem 10 concertos por terras do Tio Sam (via Music Ally).
  • Vendas de CDs na França entre 2002 e 2005 desmentem cauda longa: estudo demonstra aumento do peso dos grandes êxitos (via Catalyseurs Numériques).
  • Receitas digitais de Atlantic Records superam receitas de suportes físicos. As receitas digitais da subsidiária da Warner Music provêm de downloads de álbuns e faixas, ringtones, ringbacks, rádio por satélite e serviços de subscrição.
  • Blogs de MP3 fundam cooperativa-agregador MBV – o site tem como fundadores o Largehearted Boy, Fluxblog, Said the Gramophone, Chromewaves e Catbird, incluindo tanto conteúdos originais como entradas agregadas dos participantes (via No Rock And Roll Fun).
  • TuneCore ajuda bandas a encontrarem anunciantes para oferecerem música de borla (via Ars Technica) – Mais uma vez, os brasileiros da Trama Virtual chegaram primeiro.
  • DRM do serviço de downloads ilimitados Comes With Music da Nokia derrubada – chama-se Tunebite, custa 20 euros e é um software que promete remover as restrições tecnológicas de mais de 100 formatos, incluindo o do Comes With Music da fabricante finlandesa. Acreditam ainda que existe DRM inviolável? (via Electric Pig)

Novos serviços da Música 2.0:

  • Twones – gostavam de ter um lifestream para a música online onde fosse possível agregar num único local todos os rastos que deixámos por uma série de serviços e partilhá-los com os nossos amigos? Este site holandês em beta privado financiado pela gigante dos concertos Live Nation consiste exactamente nisso. Funciona com Last.fm, iLike, YouTube, Finetune, MySpace, imeem, MOG, Seeqpod, Deezer, Hype Machine e muitos mais, num total de 20. O único inconveniente é que requer a instalação de um programa para o Windows e/ou uma extensão para o Firefox (via Hypebot).
  • Rumblefish – trata-se de um serviço de licenciamento de música para filmes, jogos, televisão e anúncios destinado a bandas independentes. Recentemente assinou um acordo com a YouTube.
  • Mix2r – plataforma de colaboração online entre músicos (via Lucas Gonze).
  • JamsBio – uma comunidade de fãs de música que permite criar Tops temáticos de cinco canções e partilhar críticas de música (via RocketSurgeon).
  • Serviço francês de música online MusicMe oferece streaming ilimitado e gratuito de quatro milhões de temas – até aqui só era possível ouvir até três vezes a mesma música e apenas mediante a indicação de um endereço de email (via My Music).
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