Não obstante o facto das vendas de música digital em Portugal serem bastante decepcionantes para os artistas nacionais, vale a pena não esquecer que a música não conhece fronteiras, sobretudo no caso de artistas que cantam em inglês ou que apenas compõem temas instrumentais. O que isto quer dizer é que conceber uma estratégia de distribuição e promoção digital pode sempre valer a pena. Neste aspecto, a história de Corey Smith é bastante instrutiva para quem pensa que é impossível sobreviver sem a ajuda da muleta de uma editora discográfica.
Em 2007, este cantor norte-americano recebeu 1,7 milhões de dólares (1,3 milhões de euros) apenas com o apoio de uma equipa de sete pessoas. No ano passado, esse valor aumentou para os 4,2 milhões de dólares (3,2 milhões de euros), de acordo com o que o seu empresário Marty Winsch contou a Bob Lefsetz. É óbvio que com este mais do que razoável pé de meia, Corey Smith decidiu abandonar a sua carreira de professor do ensino secundário para se dedicar a tempo inteiro ao seu hobby de fim-de-semana. Como é que ele o conseguiu? Em primeiro lugar, oferecendo música grátis, muita música grátis.
Os downloads de borla serviram para chamar as pessoas para os concertos. E contrariando o temor dos executivos das grandes editoras, a experiência de Corey Smith mostra que oferecer música grátis não canibaliza as vendas em lojas de música online como a do iTunes. Na verdade, o que se passa é exactamente o contrário pois quando este Verão a sua equipa retirou os MP3s do site as vendas no iTunes desceram por aí abaixo.
Outro segredo que explica o sucesso de Corey Smith é que ele chega a cobrar apenas cinco dólares pelos bilhetes dos concertos. Numa altura em que boa parte dos artistas com algum nome na praça anda a cobrar rios de dinheiro por um bilhete, a lição deste cantor do estado norte-americano de Geórgia é mais uma vez instrutiva: ao aplicar um preço bastante acessível, Corey Smith consegue atrair um maior número de fãs que por sua vez levam os seus amigos e familiares atrás.
Convém no entanto notar que esta receita não pode servir como solução universal para todos os músicos: quando Marty Winsch tentou aplicar a mesma estratégia a outros clientes seus, a coisa não correu tão bem. A verdade é que por mais que se queira, é necessário que a música do artista tenha um potencial comercial – por outras palavras, que agrade ao grande público. É o caso de Corey Smith, cuja música pode ser caracterizada como uma mistura de Dave Matthews Band e Ben Harper. Infelizmente, muitos músicos portugueses ainda têm demasiados pruridos em relação a quaisquer desvios que comprometem a sua mensagem estética. Mas por esta altura do campeonato já todos devíamos ter consciência de que nem tudo o que é comercial é mau.
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