
Ano novo, vida nova para o Remixtures. Este blog inicia hoje uma nova fase à qual eu já tinha aludido aqui no final de Novembro quando fui forçado a interromper o ritmo de actualização diária por dificuldades tecnológicas e financeiras. Esta mudança de rumo deriva do facto de ter concluído desde há algum tempo que o esperado lento crescimento das receitas geradas pela publicidade no segmento online em Portugal nunca irá provavelmente compensar em termos monetários e financeiros a manutenção periódica e regular de um blog com conteúdos originais escrito em nome individual.
Perante esta constatação, tentei durante muito tempo encontrar soluções alternativas para assegurar a sustentabilidade financeira deste projecto que não prejudicassem em nada a sua qualidade mas que tirassem partido da projecção e do know-how acumulado por mim ao longo dos últimos dois anos através da marca Remixtures. Infelizmente, até há pouco tempo todas estas soluções pareciam esbarrar com um dilema: o estado incipiente de adopção e exploração dos media online tanto por parte das indústrias culturais portuguesas como dos media tradicionais em comparação com o panorama europeu e norte-americano
Contudo, creio que chegou a altura indicada para avançar sem receios e medos com aquilo que espero vir a revelar-se um modelo de negócio sustentável, justo e equilibrado para o Remixtures e para os seus leitores: um modelo freemium em que o serviço básico será grátis mas todos os produtos e serviços adicionais serão pagos.
Freemium!? O que é isso?
Desde o início deste blog que tenho defendido que músicos e bandas devem oferecer gratuitamente a sua música ao público fiel a partir da sua página no MySpace ou, de preferência, num site próprio. Continuo a acreditar que esta é a melhor ferramenta de promoção que um músico ou uma banda tem ao seu dispor para vender outros produtos como merchandising, t-shirts, bonés, canecas, edições especiais e exclusivas dos seus discos mas, sobretudo, com vista a atrair mais pessoas aos seus concertos.
Esta estratégia freemium, por vezes também chamada de crowdfunding, faz todo o sentido nos dias de hoje. As pessoas habituaram-se a receber os conteúdos de borla, gratuitamente. Os resultados financeiros das operações dos Nine Inch Nails e dos Radiohead mais do que comprovam que continuará a haver sempre uma pequena percentagem de pessoas com interesse e/ou recursos financeiros para pagar por algo mais especial, um extra. De facto, o sistema crowdfunding de financiamento pelos fãs tem sido aplicado com sucesso por uma série de artistas mais ou menos desconhecidos do grande público. Aliás, não é só na música que este modelo freemium faz todo o sentido, mas também em todos os sectores cujos produtos podem ser digitalmente reproduzidos como fotografia, software, cinema & vídeo, design, literatura, etc.
Na verdade e apesar de todas as diferenças nas suas funções, músicos, jornalistas, bloggers, escritores de ficção e não ficção, cineastas, designers e até mesmo programadores encontram-se todos no mesmo barco. Com isto, quero dizer que aquilo que der certo para uns também dará necessariamente para os outros todos. A digitalização é um facto adquirido que não deve ser combatido – como fazem aqueles que acreditam piamente que o direito de autor/copyright é a melhor forma de defender os interesses dos criadores e de recompensá-los condignamente -, mas sim aproveitado pelos autores de forma a comercializar a quem tem posses para tal os bens escassos associados à sua actividade. Os primeiros a aprenderem essa lição foram os programadores de software livre que não tiveram receio em dar de borla o seu código e cobrar pelo suporte técnico e formação.
A criação de conteúdos online de qualidade merece ser paga
A ideia de fazer equivaler produtores de conteúdos como bloggers, jornalistas ou escritores de não-ficção a programadores e designers poderá fazer alguma confusão na cabeça de certos pretensos anunciantes que consideram que os bloggers não passam de “macaquinhos que copiam e colam algumas frases” e que apenas merecem receber uns míseros trocos. Idem, idem, aspas, aspas para certos empresários de comunicação social que pensam que basta apenas oferecer um estágio ou um subsídio de alimentação para aliciar “meia dúzia de marmanjos” que tenham gosto para a escrita para lançar um site de notícias.
Essa táctica pode render umas boas dezenas de milhares de pageviews durante seis meses/um ano, mas não serve para criar uma marca de qualidade que transpire credibilidade, fiabilidade, reputação, confiança – em suma: capaz de estabelecer uma relação a longo prazo de diálogo e interacção com os leitores. E isso só é possível com o recurso a profissionais experientes com competências específicas em determinados campos informativos. Nesse aspecto, os grupos de media portugueses bem que podiam aprender algo com a blogosfera onde todo o assunto tem dignidade suficiente para ser abordado por especialistas e não por “mão de obra” indiferenciada.
Dito de outro modo: não me peçam para escrever sobre política ou sobre futebol ou sobre o conflito israelo-árabe se eu considero que possuo competências e conhecimentos em música e entretenimento digital, media sociais e P2P que poucos mais têm. Se não compreendem isso, então estão a perder o vosso tempo. Todo o meu passado, presente e futuro está relacionado com aquilo sobre o qual eu escrevo aqui regularmente. No meio online como no offline, a qualidade paga-se. Aqueles que tal como eu têm formação graduada e até mesmo pós-graduada em jornalismo e comunicação social mas que aceitam ser tratados como seres inferiores em relação a profissionais de outras áreas criativas não merecem qualquer consideração da minha parte.
Mas embora considere que todos os criadores, sem excepção, devam ser recompensados, acho que esse direito não é de todo incompatível com o dos utilizadores de terem a liberdade de fazerem tudo o que quiserem com os seus conteúdos, com a condição de mencionarem sempre a sua fonte e garantirem a mesma liberdade em quaisquer eventuais obras derivadas. No meu caso concreto, isso significa que toda a gente pode distribuir todos os artigos publicados aqui até hoje, modificá-los, copiá-los, partilhá-los e até mesmo vendê-los – desde que tenham a decência de incluir o link para o “original”, o nome da publicação (Remixtures) e/ou do seu autor (Miguel Caetano).
Não me chateia absolutamente nada que a maioria dos leitores do Remixtures não pague nada pelo produto grátis que são os conteúdos aqui disponíveis. Mas chateia-me tremendamente que quem tenha possibilidade de pagar por eles e que tire partido deles na sua actividade profissional ou docente não esteja disposto a pagar mais por conteúdos adicionais ou pacotes extra.
A minha proposta
Em termos concretos, a proposta freemium do Remixtures passa por disponibilizar uma série de serviços personalizados e complementares a uma vasta gama de entidades potencialmente interessadas como jornais, revistas, publicações online, escolas de formação profissional, bandas e músicos independentes, editoras discográficas, promotoras de concertos, universidades, associações industriais e profissionais, etc. Inicialmente e salvo situações excepcionais, este modelo deverá abranger os seguintes serviços disponibilizados ao preço mínimo referido:
- Artigo original até cinco mil caracteres em português ou inglês sobre um tema concreto relacionado com o mercado da música e do entretenimento digital em geral (vídeo, televisão, media e edição de livros) ou media e redes sociais, com direito a posterior republicação em Remixtures.com sob licença Creative Commons BY-SA: 150 euros.
- Artigo original entre cinco a 10 mil caracteres em português ou inglês com direito a posterior republicação em Remixtures.com sob licença Creative Commons BY-SA: 250 euros.
- Artigo original com mais de 10 mil caracteres em português ou inglês com direito a posterior republicação em Remixtures.com sob licença Creative Commons BY-SA: 350 euros.
- Dossier especial em português ou inglês com 10 ou mais páginas tamanho A4, fonte 12, espaço e meio, com direito a posterior republicação em Remixtures.com sob licença Creative Commons BY-SA: 500 euros.
- Conferência com a duração de 30 minutos a uma hora sobre um tema a especificar previamente (o preço indicado não inclui despesas de deslocação, alojamento e alimentação)
- Universidades/Associações de estudantes: 250 euros
- PME: 350 euros
- Empresa com mais de 500 funcionários/Multinacional: 500 euros
- Serviços de Consultoria
- Sessão telefónica ou via Skype até 30 minutos: 100 euros
- Sessão presencial até 30 minutos: 150 euros
- Sessão presencial até uma hora: 300 euros
Ao propor esta tipologia de ofertas freemium, espero assim aplicar na prática os conselhos que venho desde há muito pregando aqui nestas páginas. Assim e apesar dos constrangimentos inerentes ao meio online português, considero de todo plausível que um músico ou uma banda que sinta necessidade de estabelecer uma presença online para além de uma mera página no MySpace se interesse por obter algumas dicas adicionais sobre quais as outras redes sociais em que deve estar presente, como fazê-lo e o que deve fazer para atrair os visitantes para o seu site e fazer com que uma parte deles venha aos seus concertos.
Do mesmo modo, considero que poderá ser de toda a conveniência para uma startup que esteja a pensar ou está prestes a lançar um serviço de música online entrar em contacto comigo de forma a evitar dar certos passos em falso antes de abrir ao público. O mesmo se poderá aplicar a uma editora discográfica independente que sinta necessidade de reorientar a sua actividade para o suporte online mas que não saiba qual a melhor forma de o fazer.
Dito isto, apesar de ter até agora dedicado especial atenção à música online posso dizer que não tenho deixado de acompanhar de perto as transformações que têm vindo a ocorrer com outros tipos de conteúdos como o vídeo e a televisão. A história recente demonstra que é inútil combater essas mudanças, pelo que todos os key players envolvidos nestes sectores necessitam de as tentar compreender se não querem ser tomados de surpresa. Proponho-me por isso a ajudá-los a fazer essa transição.
De forma a dissipar todas as dúvidas, o lançamento desta gama de serviços não irá em princípio afectar severamente a regularidade da actualização e a qualidade dos conteúdos do Remixtures. Pelo contrário, penso que os leitores só terão a ganhar pois tentarei transmitir toda a experiência adicional adquirida com eles – excepto nas situações em que me for exigido sigilo e confidencialidade, como é claro. Se me perguntarem se isto vai dar certo, a resposta é “não sei.” Não faço a mínima ideia se existe mercado em Portugal para este tipo de serviços. Receio bem até que não e que o mais acertado seria introduzir uma versão bilingue (português e inglês) de todos ou pelo menos uma parte dos conteúdos do Remixtures.
O meio musical português continua a olhar a Internet como o parente pobre dos media face ao íman poderosíssimo que a televisão ou a rádio representam. A maior parte dos media tradicionais – tanto os generalistas como os especializados – mantém uma presença online paupérrima e permanece indiferente ou desconfiado em relação aos bloggers que escrevem sobre temas considerados menos “nobres” como a tecnologia e a música. Mas como quem não tem nada, não tem nada a perder… Aliás, é pelo facto de não estar agarrado a uma estrutura burocrática, centralizada, vertical e convencional que me posso dar ao luxo de fazer isto.
O receio de arriscar e de virar as normas do avesso não faz definitivamente parte dos hábitos dos portugueses – basta olhar para o número de startups e de ONGs com actividades ligadas às tecnologias de informação e em particular à Web em Portugal. Foi-nos ensinado nas escolas que nos devemos submeter e fazer tudo por arranjar um emprego estável para toda a vida. Acontece que essa estabilidade desapareceu e já não volta mais. Mas isso significa que não existem mais razões para nos submetermos a uma relação desigual com uma entidade com fins lucrativos. Podemos e devemos colaborar apenas com quem respeita o nosso trabalho, nomeadamente, pagando por ele o preço que considerarmos justo e adequado ao nosso valor. É este o exemplo e o desafio que eu gostaria de deixar a todos os demais. Mas para isso não precisamos dos direitos de autor tal como eles se encontram definidos actualmente. Pelo contrário. Basta olhar para as notícias e artigos que se encontram em inúmeras publicações “jornalísticas” profissionais offline e online portuguesas cuja autoria é atribuída a uma empresa e não a um autor em concreto. A que rosto e a que nome atribuir a responsabilidade pela incompetência ou pela excelência do texto que acabámos de ler? De todos e de ninguém. O mesmo já não acontece na blogosfera onde os autores mais reputados dão a cara por cada linha que escrevem.
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