Os cépticos vão dizer que apenas nove das 36 músicas que compunham o disco foram disponibilizados gratuitamente de forma autorizada via BitTorrent, mas não deixa de ser um marco histórico para a cultura livre que de acordo com o blog da associação Creative Commons o álbum mais vendido do ano em formato MP3 na loja da Amazon durante o ano passado tenha sido Ghosts I-IV, o álbum que os Nine Inch Nails (NIN) de Trent Reznor lançaram em Março de 2008 e cuja primeira parte foi publicado segundo uma licença Creative Commons BY-NC-SA para uso não comercial.
O disco foi comercializado em formato digital na sua totalidade ao preço de cinco dólares mas Reznor foi ao extremo de propor uma série de modalidades para os fãs mais dedicados, desde um pacote CD duplo + download digital ao preço de dez dólares até a uma edição ultra-deluxe limitada a 2500 exemplares com o preço de 300 dólares.
O custo elevado não foi, contudo, suficiente para demover esses fãs que esgotaram esses 2500 exemplares em apenas dois dias. Somadas as receitas de todos os pacotes, num período de uma semana a iniciativa dos NIN resultou numa bonita quantia de 1,6 milhões de dólares. O que é mais curioso é que In Rainbows dos Radiohead também se encontra na lista da Amazon, na 11ª posição. O grupo britânico permitiu igualmente que os utilizadores pudessem descarregar gratuitamente a primeira parte do disco solicitando-lhes apenas que efectuassem uma doação.
No entanto, ao contrário dos NIN a banda de Thom Yorke foi menos generosa uma vez que o álbum foi publicado segundo uma licença tradicional e esteve apenas disponível gratuitamente durante dois meses. Por outro lado, os Radiohead acabaram por recorrer a uma editora tradicional de modo a lançarem um CD físico convencional.
É inegável que ambas as bandas apenas conseguiram chegar aonde chegaram e conquistar uma enorme legião de fãs graças ao auxílio de grandes editoras na fase inicial das suas carreiras: a Interscope/Universal no caso dos NIN e a EMI no caso dos Radiohead. Mas parece-me bastante significativo que tenham sido estas bandas em particular a ocupar posições de destaque na tabela dos mais vendidos em formato digital da Amazon.
Que sinal mais nítido de que algo está a mudar do que o facto de uma banda de rock alternativo ter conseguido superar outros artistas já com carreiras estabelecidas que contaram com o apoio da máquina de marketing de editoras discográficas poderosíssimas? De facto, também na música o modelo de negócios freemium parece ser o caminho a seguir! Até porque os Nine Inch Nails voltaram a presentear os seus fãs em Maio passado com outro “brinde”, The Slip, pouco antes do início da digressão que se revelou ser um enorme sucesso.
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Deliciosamente irónico…