O que têm o agregador de notícias de tecnologia Slashdot, a rede de P2P KaZaA, a enciclopédia colaborativa Wikipédia, o tracker de BitTorrent SuprNova.org ou a rede social Facebook em comum? De acordo com Johan Pouwelse e alguns dos seus colegas investigadores da Universidade de Tecnologia de Delft responsáveis pelo desenvolvimento do cliente de BitTorrent social Tribler, tratam-se todos de exemplos de produção entre pares a partir da Internet que colocam em risco as principais fontes de receitas das indústrias de telecomunicações e conteúdos.
A curto prazo, a tendência para a crescente complexidade destes sistemas e para o crescimento do grau de colaboração onlne poderá tornar o copyright/direito de autor inaplicável. Esta é a principal conclusão que Pouwelse e companhia fazem num artigo académico de 21 páginas intitulado “Pirates and Samaritans: a Decade of Measurements on Peer Production and their Implications for Net Neutrality and Copyright” (Piratas e Samaritanos: uma Década de Métricas de Produção entre Pares e as suas Implicações para a Neutralidade e o Copyright) a que tive acesso através do NewTeeVee.
Embora sites como o Facebook, o Slashdot ou a Wikipedia não possuam propriamente uma arquitectura tecnológica descentralizada como as redes P2P, o que é facto é que eles incorporam as quatro características principais que na opinião dos autores podem ser encontradas em plataformas P2P, a saber:
- A capacidade de distinguir as boas das más contribuições;
- Um mecanismo de regulação para os recursos informáticos;
- Mecanismos eficazes para a comunicação entre os elementos do grupo;
- Um sentido de pertença a uma comunidade.
Ao longo de um período de dez anos (1999-2009), a equipa do Tribler efectuou uma série de estudos quantitativos de forma a avaliar o grau de cooperação e auto-organização das comunidades formadas em torno de sites e redes de P2P e chegaram à conclusão que dentro de um ano começarão a surgir as primeiras darknets ou redes privadas capazes de oferecer o mesmo desempenho que o software tradicional de P2P mediante o recurso a funcionalidades de sites de redes sociais como mecanismos de filtragem de conteúdos.
Estas darknets surgirão em resposta às tentativas das operadoras de telecomunicações, editoras discográficas e estúdios de cinema no sentido de implementar tecnologias de Inspecção Profunda de Pacotes (DPI). Em consequência, qualquer tentativa de fazer cumprir o copyright e punir os infractores deverá tornar-se completamente inaplicável.
Mas embora a pirataria seja o lado “mau” ou menos bom da produção entre pares, este conjunto de novas práticas colaborativas que acompanha a ascensão do personagem do prosumer – aquele que produz e consome conteúdos ao mesmo tempo -, acarreta também uma faceta samaritana ou humanitária, representada pelas mais de 400 mil pessoas que se registaram numa comunidade do Facebook para protestar contra os massacres de monges budistas em Myanmar, na Birmânia.
Os autores do artigo terminam apelando à necessidade dos políticos legislarem no sentido de legalizarem o P2P para fins não comerciais e implementarem uma licença compulsória e um sistema automático de pagamento de royalites de forma a legalizar as práticas sociais existentes. São conselhos sensatos mas será que alguém lhes dará ouvidos?
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Bom tópico, amigo. Realmente, a construção de algo, com o decorrer do tempo, acabará por virar costume, será incorporado à cultura. Depois disso, tchau para quem não se adaptar. Inclusive a legislação sobre direitos autorais.