
Qual é o verdadeiro valor da música portuguesa? A notícia do dia de hoje sobre o que resta da indústria discográfica portuguesa diz respeito à venda da editora iPlay (ex-Som Livre) pela SIC à Lemon e à Fantasy Land. Apesar do actual clima de recessão económica e da descida continuada das vendas de música em Portugal, tendo em conta que a cadeia de televisão adquiriu em 2006 a iPlay aos brasileiros do grupo Globo por um montante de dois milhões de euros, poderíamos à partida pensar que a transacção teria rondado no mínimo um milhão de euros.
Pois bem, o preço que a Lemon e a Fantasy Day pagaram pela compra da iPlay foi bastante inferior a isso. Um catálogo representando nomes como Silence 4, Deolinda, Amália Rodrigues, Carlos Paredes, Delfins, Quarteto 1111, Alfredo Marceneiro, Mafalda Veiga, João Pedro Pais, Paulo de Carvalho, Jorge Palma, Roberto Leal, Trovante, etc. foi vendido por uma moeda de um euro, de acordo com o Diário de Notícias e o Jornal de Negócios.
A carteira recheada de nomes valiosos da música portuguesa da iPlay deve-se ao facto da iPlay ter passado a representar o catálogo da Valentim de Carvalho desde o fim da parceria com a EMI em 2006, como eu referi aqui a propósito de um acordo de distribuição digital celebrado com a The Orchard em Fevereiro do ano passado – na altura, a iPlay nem sequer ainda tinha um site próprio!
Segundo o DN, “a Impresa [o grupo de comunicação social proprietário da SIC] refere ter também licenciado à Lemon e Fantasy Day, pelo período de 4 anos, os produtos fonográficos e ou videográficos sobre os quais o canal de televisão SIC tenha direitos.” A Lusa acrescenta ainda que a venda da iPlay irá representar perdas no valor de 5.8 milhões de euros para a Impresa.
Apesar de ser meramente simbólico e ter sobretudo a ver com as deficiências e ineficácias da estratégia de uma empresa que pensava que bastava comprar uma companhia importante noutro sector para montar uma estratégia multimédia bem sucedida, o preço de um euro pago por este catálogo revela bem o valor real que a música portuguesa em suporte discográfico tem para o mercado: praticamente nulo. É claro que outra coisa completamente diferente é o sector dos concertos ao vivo que não parece dar sinais de esmorecimento.
Na prática, isto significa uma maior concentração no sector da indústria discográfica. Isto porque a Lemon é actualmente a empresa que domina as tabelas de vendas com os seus CDs e DVDs musicais para crianças como “As Músicas do Noddy”, “As Músicas de Bob”, “As Canções do Ruca”, etc. Estes artigos fazem as delícias da pequenada mas não passam de produtos fabricados industrialmente, feitos a pensar numa lógica de convergência que implica outras fontes de receitas muito mais lucrativas como os eventos ao vivo. Desta forma, o investimento na música original de novos talentos será ainda mais reduzido..
A receita para o fracasso da iPlay resultou de uma perspectiva deficiente de negócios. A música é importante e pode ser uma boa fonte de receitas mas nunca quando se decide apostar exclusivamente num suporte fonográfico dispendioso que se revela cada vez menos atractivo. E quer-me parecer que foi este o caso. O dinheiro só vem quando se concilia a edição discográfica com os concertos, os DVDs, o merchandising, o licenciamento para cinema, televisão e publicidade. Embora detendo empresas em sectores-chave do multimédia, a Impresa deixou estagnar um catálogo valiosíssimo e não conseguiu tirar partido de sinergias nesses outros sectores.
A Internet é o maior incentivo à inovação para a indústria discográfica que resta em Portugal
Isto leva-nos às palavras de Eduardo Simões, o presidente da Associação Fonográfica Portuguesa (AFP), citadas pela LUSA, segundo o qual tudo isto – a descida das vendas, a venda de editoras discográficas ao preço da uva mijona – deve-se única e exclusivamente à partilha de ficheiros ilegais através da Internet. Daí que na sua opinião faça todo o sentido a constituição de um organismo como o MAPINET, o tal “movimento cívico anti pirataria na Internet” sobre o qual eu escrevi aqui que anda a tentar convencer o governo e os ISPs a cortarem a ligação de banda larga dos partilhadores.
De acordo com o responsável da AFP, “a enorme crise no sector musical poderá ter como possível consequência “um cada vez menor investimento na música portuguesa.” O pequeno grande pormenor é que não se trata da crise da música mas sim de um determinado sector: o da venda de música em rodelas de plástico a preços caríssimos devido a despesas de distribuição e stock completamente absurdas nos dias de hoje.
Na mesma peça, Vera Castanheira, directora executiva da Associação para a Gestão da Cópia Privada (AGECOP) – a tal que conta com Tozé Brito como um dos responsáveis – refere que o que está em cima da mesa não é o corte total da Internet mas sim a “proibição de fazer downloads.” O que a senhora Vera Castanheira quer dizer com isto é algo que não dá para perceber muito bem, uma vez que a Internet é uma enorme máquina de copiar, descarregar e partilhar dados. Só o próprio acto de receber um email já implica um download.
A mesma responsável disse ainda que “o actual cenário da pirataria na Internet representa uma “ameaça muito séria às indústrias da cultura.” Mas a verdade é que os dados comprovam que os utilizadores de P2P compram mais discos e gastam mais dinheiro com música. Tanto em Portugal como lá fora a crise do sector do disco resulta mais da inabilidade de uma indústria estabelecida em inovar e em enfrentar de caras os desafios do meio online através de uma comunicação directa e transparente com os fãs e da valorização dos seus artistas do que da partilha de ficheiros.
Já é tempo de deixar de culpar o “zézinho” e o bode expiatório do costume para passar a entender que a Web não é nem um grande centro comercial nem uma feira da Ladra onde os “piratas” ganham dinheiro à custa do trabalho dos “coitadinhos” dos artistas mas sim um grande espaço composto por inúmeras comunidades de fãs de música que adoram música e veneram os artistas e as bandas mas querem que os agentes do sector lhes tratem com respeito, disponibilizando-lhes artigos pelos quais valha realmente a pena pagar.
Os partilhadores portugueses que se cuidem, porém. É que há alguns ISPs que pensam que devem ser os seus clientes a arcar com a incompetência de uma indústria que quer que os outros resolvam os seus problemas.
Fonte da Direcção de Comunicação da Zon, um dos fornecedores de acesso, afirmou à Lusa que a companhia “está disponível para analisar com o regulador o melhor enquadramento legal para esta questão”.
Será que os clientes da ZON podem confiar no seu fornecedor de acesso à Internet ou serão obrigados a mudarem de operadora devido à conivência com entidades de horizontes estreitos e mentes tacanhas?
(foto de XiXiDu segundo licença CC-BY-NC-SA 2.0)
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O problema em relação ao modelo de música ao vivo como fonte de rendimento esbate-se em Portugal por dois motivos: 1) o público apenas frequenta concertos pagos por si próprio de nomes internacionais ou 2 ou 3 nacionais em espaços grandes; Os restantes são pagos em festas de Junta de Freguesia ou Câmaras Municipais – ou seja: os novos valores arriscam-se a ser mais uma forma de funcionários públicos em época de recessão; 2) Os únicos impulsionadores possíveis de um fluxo de novos espectáculos seriam, a nível local, associações culturais e recreativas permitindo o desenvolvimento regional de artistas e o seu consequente catapultar para o nível nacional. Isto não acontece porque, mais uma vez, as associações dependem de financiamento camarário para desenvolver a sua actividade. É mais fácil e lucrativo não fazer nada durante todo o ano e na Primavera organizar um torneio de futebol entre amigos que justifique o fluxo de dinheiro camarário.
Falar de música independente em Portugal não faz sentido. Não há iniciativa privada de monta. São todos funcionários do Estado, de uma forma ou de outra.
RT @remixtures POST: A ameaça mais séria à música portuguesa é a indústria discográfica e não a Internet http://tinyurl.com/bq7pwd
Resumindo, ao fim destes anos todos, os dinossauros (Portugueses e estrangeiros) ainda tentam adaptar a internet ás suas realidades e não o contrário. A diferença é que por cá as organizações antipirataria estão 3-5 anos atrasadas em parvoices (criação de Medo incerteza e duvida) relativamente ao que é feito la fora pela RIAA,MPAA,IFPI, BSA,etc…
Os resultados desastrosos e masoquistas são exactamente os mesmos.
Ha modelos de negocio alternativos, quer aqui quer lá fora. Não gerem é a quantidade industrial de dinheiro que a epoca dourada dos monopolios da industria musical tradicional gerava.
Por enquando a ganancia em manter o anterior regime fala mais alto. Vamos ver até quando.
Quanto á Zon, ha muito que é uma lambe botas deste tipo de situações. É a nossa comcast. É o isp em Portugal que faz o traffic shaping mais agressivo, que o nega descaradamente e remete responsabilidades para a ANACOM. A mentira mais recente são os 100Mbit de LB. Um desperdicio de dinheiro para o consumidor.
A a indústria discográfica é ameaça mais séria à música portuguesa http://tinyurl.com/bq7pwd
Sinceramente esperava que isto tivesse + comentários http://tinyurl.com/bvr2zp Quase nem dá vontade de escrever nada. Qual debate, qual quê?