Já não é de agora que Jacque Attali, o economista político e assessor do antigo Presidente da República de França François Mitterrand, propõe a implementação de uma licença global em relação à música descarregada a partir da Internet. Em Janeiro de 2008, o autor do clássico Bruits/Noise presidiu a uma comissão independente que publicou um relatório onde se desaconselhava fortemente a implementação de medidas repressivas como a resposta gradual cuja discussão deverá ser retomada já amanhã pela Assembleia Nacional francesa.
Ontem, Attali voltou à carga com 10 proposições para a música, o cinema, o livro e outras actividades artísticas, um artigo publicado na Slate.fr onde anuncia igualmente uma mesa redonda destinada a encontrar um modelo de funcionamento para uma remuneração colectiva da partilha de ficheiros e que contará com a presença de Patrick Zeinick, o patrão da primeira editora independente francesa Naïve (responsável pelos êxitos discográficos da Primeira Dama Carla Bruni). Achei o artigo tão interessante e importante que decidi traduzi-lo:
Antes de retomarmos o debate no parlamento a respeito da lei Hadopi, convém esclarecer alguns pontos.
Primeiro que tudo há que ser claro: ao escrever o que se segue, eu pretendo ajudar os artistas e as editoras que os apoiam a enfrentar melhor os desafios das novas tecnologias e a tirar melhor partido delas, de modo a realizarem melhores criações e a garantir os seus rendimentos.
As transformações técnicas nunca foram e não são inimigas dos artistas: elas permitiram inventar novas formas de criar (o piano, o violino, a fotografia, o cinema) e novas formas de dar a conhecer as suas obras (o livro, a imprensa, o gramofone, a rádio, a televisão, o cd, o dvd). Em todas essas ocasiões, os peritos afirmaram que tudo isso iria provocar enormes danos para os artistas. Contudo, estes conseguiram sempre tirar o melhor partido delas para criar de outra forma e darem-se melhor a conhecer.
O mesmo está a acontecer com a Internet. E recentemente proferiram-se muitas inverdades a respeito dessas questões.
Assim, proponho-me debater em separado dez proposições para a música, o cinema, o livro e outras actividades artísticas… que merecem cada uma delas uma discussão calma e aprofundada:
- A gratuitidade de um serviço para o consumidor não implica necessariamente a não remuneração do produtor do serviço. A gratuitidade para o consumidor de um serviço é a expressão da sua socialização e não a exploração do trabalho do seu produtor. O contribuinte paga o professor ou o polícia, que não trabalham gratuitamente; a publicidade paga às pessoas que trabalham na rádio ou na televisão que nós ouvimos de graça. Em particular, o músico ou o cineasta é, tanto na rádio como na televisão, remunerado por outros que não os que o escutam ou vêem. E os artistas não se sentem ofendidos por não serem pagos directamente por aqueles que se interessam pelas suas obras.
- O descarregamento gratuito não é a mesma coisa que a pirataria, porque a música ou o cinema não são objectos materiais. Se eu roubo um pão, aquele a quem roubei deixa de o ter. Se eu descarrego uma música ou um filme, eu não privo ninguém de algo. Desde sempre que a arte obedeceu portanto a outras leis económicas. Este é o objecto dos direitos de autor, que podem ser pagos por outros que não o consumidor final.
- O descarregamento gratuito é, em si mesmo, um factor de desenvolvimento da economia da música e do cinema. As pessoas que descarregam são as mesmas que compram e que vão ao concerto. Tal como acontece desde há mais de um século com a rádio. Um estudo recente demonstra mesmo que aqueles que descarregam, vêem ou escutam mais via streaming são aquelas que mais tarde acabam por comprar mais CDs ou DVDs.
- O sistema de vigilância e sanções contra aqueles que descarregam mais proposto pela lei Hadopi não irá funcionar em particular devido à crescente adesão ao streaming que não é abrangido pela lei.
- Para os artistas, o importante não é saber quem os descarrega mas quantas pessoas os descarregam. É por isso necessário inverter o ónus da prova e obter junto dos fornecedores de acesso uma informação sobre o número de internautas que descarregam um artista e não o número de artistas descarregados por um internauta. Isso é possível: basta ver nomeadamente aquilo que faz a BigChampagne que analisa os fluxos dos descarregamentos via peer to peer. Isso torna também desnecessário que os artistas se vejam transformados em auxiliares da polícia.
- O fornecedor de acesso equivale a um conjunto de rádios ou de televisões. É ele que beneficia mais com os descarregamentos e o streaming. É natural que seja ele a contribuir em benefício dos artistas.
- As majors, que já compreenderam que a lei Hadopi não irá funcionar, estão prestes a implementar a licença global, para seu benefício exclusivo, preparando-se para oferecer subscrições específicas na Internet que irão permitir aceder à totalidade do seu catálogo, por um preço pré-pago, sem que cada um pague pelo filme ou pela música que descarregue. Trata-se exactamente da mesma licença global que elas recusaram anteriormente. Os artistas que não se encontrarem nesses catálogos não estarão disponíveis. E mesmo que estejam, não irão receber mais do que migalhas.
- Os artistas (músicos e cineastas) devem apropriar-se da licença global e definir o modo de controlo, de tarifação e de recolha, de modo a que consigam o melhor negócio e não apenas os restos, uma vez que o acordo será estabelecido entre as majors e os fornecedores de acesso. Patrick Zeinick reconheceu recentemente essa necessidade e isso é um grande avanço na convergência dos nossos pontos de vista.
- Os músicos não têm portanto nada a perder se as pessoas filmarem os seus concertos: os espectadores pagaram o seu lugar, eles têm direito a ficar com uma recordação, assim como têm direito a tirarem fotos. O direito a gravar um espectáculo fará parte do preço pago para o assistir. No futuro todos os artistas irão distribuir eles próprios o CD ou DVD do concerto à saída. Essa é a grandeza do artista: deve tomar o risco de registar a sua actuação mesmo que esta não seja tão perfeita como uma gravação em estúdio.
- As novas tecnologias permitem inventar novas formas artísticas capazes de remunerar os artistas. Especificamente no campo da música, estão prestes a aparecer novas formas de criação e valorização das obras. No cinema, o 3D deverá renovar as salas. A chegada do iPhone em particular e, futuramente, de outras tecnologias conduzirá a novas formas de organizar os micro-pagamentos, dos quais os artistas deverão ser os principais beneficiados, se se souberem organizar, num mundo onde o custo de produção e de distribuição das suas obras deverá diminuir continuamente.
Uma mesa redonda como aquela que eu acabei de propor precisamente a Patrick Zeinick deverá discutir calmamente cada um destes dez pontos ao reunir todos os interessados: artistas, editoras, agentes, sociedades de autores, promotores de eventos, consumidores e fornecedores de acesso. É bem possível que possam surgir daí ideias novas.
(foto de fablibre segundo licença CC-BY-NC-SA 2.0)
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POST: Jacques Attali apresenta 10 proposições contra a resposta gradual e a favor da licença global http://tinyurl.com/d5ejbt
RT @remixtures: POST: acques Attali apresenta 10 proposições contra a resposta gradual e a favor da licença global http://tinyurl.com/d5ejbt
Jacques Attali apresenta 10 proposições contra a resposta gradual e a favor da licença global http://tinyurl.com/d5ejbt
10 _sensatos_ motivos pras produtoras, gravadoras e artistas pararem de encher o nosso saco! http://tinyurl.com/cfnmf4
Olá, Miguel, obrigado pela tradução do texto. Este senhor parece ter ideias muito interessantes e bem estruturadas. Um debate nesse nível vai ser importantíssimo para a cultura. Dos pontos mais citados, considero o mais importante o seguinte:
"O descarregamento gratuito é, em si mesmo, um factor de desenvolvimento da economia da música e do cinema."
(Também) sobre isso deixo um video do Larry Lessig, caso não tenha visto:
http://www.ted.com/index.php/talks/larry_lessig_s...
@contrafactos: essas subscrições n só têm DRM como deixam os mais pequenos de fora. Daí a importância da licença global http://migre.me/XjC