Até agora é o fenómeno YouTube do ano e no entanto parece não ter ganho sequer um tostão com a fama. Cinco dias após a transmissão do programa “Britain’s Got Talent” – uma versão britânica do português “ídolos” – o vídeo da interpretação de “I Dreamed A Dream” da banda sonora de Les Misérables por Susan Boyle já somava mais de seis milhões de visualizações no YouTube.
Via Twitter, blogs e outras redes sociais os links para o vídeo espalharam-se pela Web que nem um vírus. Nove dias depois e o número já ia nos 70 milhões mas alguns analistas estimam mesmo que o total de visualizações de todas as versões da actuação de Boyle já superaram a fasquia das 100 milhões de visualizações.
Afinal de contas, quem não gosta de uma boa história do “Patinho Feio” com um talento escondido? Susan Boyle preenche todos os requisitos para tal, sendo ela uma desempregada escocesa de 47 anos mas com cara de cinquenta e muitos, a virgem que nunca foi beijada. Eu próprio devo confessar que me deixei emocionar pela súbita onda gigantesca de simpatia e “admiração” em torno de Boyle que se viu assim transformada em nova “cantora do povo” da Geração YouTube.
É claro que também houve quem desconfiou do fenómeno e achou que tudo não passou de uma manobra cínica e espertalhona de edição televisiva, especificamente concebida para provocar uma catarse vulgar nos espectadores, como se aquele momento provasse que na televisão nem a aparência nem a atracção sexual são o que importam.
De qualquer forma, parece que a senhora Susan Boyle não retirou até ao momento qualquer benefício financeiro desse êxito intergaláctico via YouTube. Isto porque o vídeo não é acompanhado por anúncios o que significa que umas centenas de milhar de euros poderiam já ter ido para o seu bolso, descontando os royalties a distribuir à produtora FremantleMedia, ao canal de televisão ITV e à Sony Music Entertainment (a editora do criador do programa Simon Cowell). Para o vídeo ser monetizado, o programa deveria ter um canal próprio no YouTube. Ora, tal não acontece.
Segundo o jornal britânico The Times, tudo se deve a um impasse nas negociações entre a ITV e a YouTube para chegarem a um acordo para a partilha de receitas. Se o canal de televisão quer ter o direito de exibir anúncios no início do vídeo (mais conhecidos por pre-rolls), a YouTube discorda da ideia e prefere anúncios de texto e overlays exibidos no fundo do ecrã enquanto o vídeo está a ser reproduzido.
Só que esta teimosia de ambos os lados está a sair muito cara. A partir de um cenário (conservador) que aponta para 75 milhões de visualizações das várias versões da actuação, o The Times estima que o vídeo já podia ter gerado 1,87 milhões de dólares (pouco mais de 1,4 milhões de euros). Nada mau. Mas quem fica a perder mais com isto tudo é a própria Susan Boyle. Seja como for, Simon Cowell já prometeu a Boyle a gravação de um álbum. Ao menos desta vez não estamos perante uma desconhecida que é usada e deitada fora pela indústria do espectáculo. A menos que se “esqueçam” de lhe distribuir os royalties gerados com as vendas do futuro disco. Admirem-se!
(foto de Bert Kommerij segundo licença CC-BY-NC-SA 2.0)
Artigos relacionados:
- YouTube: monetizar é a palavra de ordem
- Grandes editoras discográficas dominam Top dos vídeos mais vistos no YouTube
- Jogli: um motor de busca com 500 milhões de músicas “desviadas” do YouTube
- Universal Music quer criar um site de vídeos para concorrer com o YouTube
- YouTube: para quê remover os vídeos quando se pode monetizá-los?



{ 1 trackback }
{ 10 comments… read them below or add one }
POST: Susan Boyle recebe 0€ por mais de 100 milhões de visualizações no YouTube http://tinyurl.com/dhetzo
Susan Boyle recebe 0€ por mais de 100 milhões de visualizações no YouTube | Remixtures http://bit.ly/xNiZy
GReader: Susan Boyle recebe 0€ por mais de 100 milhões de visualizações no YouTube http://migre.me/FpQ
Para reflexão: RT @compulsivo: GReader: Susan Boyle recebe 0€ por mais de 100 milhões de visualizações no YouTube http://migre.me/FpQ
Um estudo levado á cabo pelo CEMDPACMFC (Centro de Estudos Mad Dogg Para Artistas no Começo Meio e Fim de Carreira) concluiu recentemente que se NAO EXISTISSE O YOUTUBE, todo e qualquer disco previamente publicitado VENDERIA ate dizer chega, permitindo assim ao artista completamente desconhecido, vencer na vida pelo seu proprio talento e assim fazer fortuna e fama.
Mostrar de graça o que deve ser recompensado monetariamente tem de se tornar crime.
Coitadinha da Susan. Se eu fosse a ela, a partir de agora so cantava no duche. Nao recebe nada á mesma, mas tambem nao fica a perder.
Morte á Pirataria!
Mad Dogg
Caro Mad Dogg: os seus argumentos são tão infantis e tão fáceis de refutar que até dá dó. Se não compreende que hoje em dia ninguém compra discos de um artista se não puder ouvir de antemão as suas músicas via YouTube, MySpace, Last.fm e outros suportes online; se não compreende que hoje em dia um artista já não precisa dos subornos da rádio e da televisão para ter sucesso, então nem vale a pena dizer mais nada. Que vá viver para a Coreia do Norte e deixe os fãs de música em paz. Ouvi dizer que lá apenas os artistas promovidos pela comunicação social a serviço do Estado conseguem ter muitas vendas
Caro Mad Dogg: os seus argumentos são tão infantis e tão facilmente reputados que até dá dó. Se não compreende que hoje em dia ninguém compra discos de um artista se não puder ouvir de antemão as suas músicas via YouTube, MySpace, Last.fm e outros suportes online; se não compreende que hoje em dia um artista já não precisa dos subornos da rádio e da televisão para ter sucesso, então nem vale a pena dizer mais nada. Que vá viver para a Coreia do Norte e deixe os fãs de música em paz. Ouvi dizer que lá apenas os artistas promovidos pela comunicação social a serviço do Estado ainda conseguem ter muitas vendas
mas está a ganhar por outras vias. Não sei se sabes mas a roupa que ela agora veste é dada pelos estilistas da alta costura
Hehehe Ricardo! Haja tecido!
Mad Dogg
Essa quantia toda que se está perdendo por culpa do conflito de interesses dos negociantes é mais uma prova de que conteúdo gratuito gera receita, e milionária! Também é uma prova de que a indústria continua agindo estupidamente, perdendo oportunidades de levantar negócios em sintonia com o grande público trazido pela tecnologia e, ao mesmo tempo, insistente na repressão inútil ao livre compartilhamento.
Vida longa à cultura livre!