Reino Unido: estudo sobre partilha de ficheiros usa estatísticas duvidosas para enganar políticos

by Miguel Caetano on 1 de Junho de 2009

Se até ao momento a indústria de entretenimento britânico não tinha conseguido neutralizar as resistências do ministro britânico para a Propriedade Intelectual David Lammy em dar carta branca aos titulares de direitos para forçarem os ISPs a cortarem o acesso à Internet dos partilhadores, a recente publicação de um estudo pretensamente “científico” e “objectivo” poderá contribuir decisivamente para a entrada em cena da “resposta gradual” no Reino Unido.

Intitulado Copycats? Digital Consumers in the on-line Age (via Open… e ZeroPaid), o estudo de 85 páginas foi realizado pelo Centre for Information Behaviour and the Evaluation of Research (CIBER) do University College de Londres (UCL), tendo sido encomendado pelo Strategic Advisory Board for Intellectual Property (SABIP) – uma entidade pública criada no seguimento das recomendações do relatório Gowers sobre Propriedade Intelectual de Dezembro de 2006.

Segundo a pesquisa – que foi mesmo motivo de uma notícia da BBC – a partilha não autorizada de ficheiros está a ter consequências catastróficas e a provocar o desaparecimento de milhares de postos de trabalho.

Mas infelizmente e apesar de ter sido elaborado por reputados académicos, o estudo baseia-se numa série de premissas incorrectas. O resultado é que as conclusões do estudo não podem ser realmente levadas a sério na implementação de qualquer política governativa de propriedade intelectual.

Só para terem uma ideia de como a metodologia do estudo é tão obtusa: os investigadores ligaram-se por volta da hora do almoço do dia 9 de Abril à rede Vuze de P2P – que na verdade não existe pois o Vuze (ex-Azureus) limita-se a usar o BitTorrent – e detectaram que 1,3 milhões de utilizadores se encontravam em linha a partilhar conteúdos.

A partir daí, eles fazem uma série de extrapolações completamente descabidas para dizerem que por ano os partilhadores britânicos acedem de graça a conteúdos com um valor comercial superior a 12 mil milhões de libras (13,9 mil milhões de euros). Os autores chegaram a este bonito número através de cenários meramente hipotéticos que não têm qualquer relação com a realidade:

  • Se todos os partilhadores desta rede descarregarem cinco ficheiros protegidos por direitos de autor por dia: Nem toda a gente utiliza redes de partilha de ficheiros para descarregar conteúdos protegidos por direitos de autor. Uma percentagem significativa desses utilizadores descarrega álbuns de música livre disponibilizados a partir do Jamendo, LegalTorrents, Magnatune ou a plataforma de distribuição de conteúdos do Mininova. Por outro lado, ninguém pode adivinhar qual a média de ficheiros que os utilizadores descarregam por dia.
  • Se todos os utilizadores que descarregaram conteúdos protegidos por direitos de autor pagassem por eles caso não tivessem tido oportunidade de os descarregar de borla: Por aqui se vê até que ponto é que os investigadores seguem à risca a estratégia argumentativa da indústria de entretenimento de cada download corresponde a uma venda perdida. Só que a verdade é que os downloads funcionam frequentemente como uma experiência prévia que poderá (ou não) levar à aquisição do artigo, caso o utilizador ache que o preço solicitado esteja correcto e – é claro – disponha de meios para pagar.
  • Se o valor médio de cada ficheiro é de cinco libras: de novo a mesma técnica desonesta, só que aqui parte-se do princípio de que o valor de mercado dos bens digitais é necessariamente aquele atribuído pela indústria de entretenimento. Mas não se pode comparar ficheiros que podem ser copiados e reproduzidos milhares de vezes sem perda de qualidade e com um custo mínimo a bens analógicos que são impossíveis de duplicar.

Finalmente, o estudo refere ainda que pesquisas académicas anteriores sugere que os utilizadores que partilham ficheiros apresentam menos 30 por cento de probabilidades de comprarem música. Aqui os investigadores referem-se a um estudo de Alejandro Zentner da Universidade do Texas em Dallas cuja primeira versão data de 2003 mas que só foi oficialmente publicado em 2006.

No entanto, este estudo foi por sua vez fortemente criticado pelo economista Rufus Pollock por ignorar o tal efeito de sampling, isto é: os partilhadores apenas compram música porque desfrutam do acesso prévio aos discos. Daí que as duas variáveis estejam correlacionadas.

Foi aliás com base nesta metodologia que um estudo da Escola Norueguesa de Gestão BI revelou que aqueles que descarregam gratuitamente música a partir de sites e redes ilegais adquirem legalmente dez vezes mais música do que os restantes internautas. Anteriormente, outra pesquisa encomendada pelo governo canadiano tinha também concluído que descarregar o equivalente aproximado a um CD (12 faixas) aumenta a compra de música em cerca de meio álbum (0,44 CDs).

O problema é que o governo britânico poderá não dar ouvidos a estas críticas e apenas levar em consideração estudos extremamente favoráveis à visão da indústria do disco e do cinema como este. O ministro David Lammy já veio dizer que “o relatório ajuda a contextualizar a escala do problema.” Ainda assim, sublinhou que continuam a existir muitas lacunas em termos de provas empíricas que precisam de ser colmatadas.

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Reino Unido: Sete milhões de partilhadores ou 3,9 milhões? :: w a z z u p
8 de Setembro de 2009 ás 18:25

{ 3 comments… read them below or add one }

1 netshark 1 de Junho de 2009 ás 23:47

São 3 das principais falacias em que estes senhores costumam cair.

A primeira é uma estimativa baseada em…absolutamente nada.
O unico meio aproximado, de obter uma estimativa, para UM isp, seria ter esse ISP a fazer sniffing aos seus clientes, verificando os inicios e fim de cada ficheiro transferido. Complexo, de alta carga computacional e ilegal.

A segunda é a velha maxima de ver dinheiro virtual, muito propria de economistas, que acham ter uma bola de cristal com poderes de adivinhação, para os proximos 5 anos.
Uns pagariam sem duvida o preço, mas outros continuariam as suas vidas muito felizes, gastando pouco ou nada em musica.

Quanto á 3ª está intimamente ligada com a segunda, para tentar vitimizar ainda mais a industria musical. Já o escrevi antes: o digital é informação, logo é intangivel. Não tem forma fisica.
Só isso, ja dá para destruir o custo irreal atribuido pelas editoras.

Quanto á actuação dos politicos, é um misto de FUD sobre estes assuntos e reverência aos lobbies, seja por favores politicos, tráfico de influencias, ou outras razões etico-legais duvidosas.

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2 Fábio Alexandre 2 de Junho de 2009 ás 0:31

Estudo sobre compartilhamento de musicas usa estatísticas duvidosas para enganar políticos #FuckAPCM http://tinyurl.com/mfng2u

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3 Bruno Miguel 2 de Junho de 2009 ás 17:53

Reino Unido: estudo sobre partilha de ficheiros usa estatísticas duvidosas para enganar políticos | Remixtures http://tinyurl.com/lzjuh3

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