O sonho da indústria de entretenimento britânica era suspender ou mesmo cortar a ligação à Internet dos partilhadores mas o governo britânico já tinha dito por diversas vezes que não fazia tenção de implementar um mecanismo de resposta gradual.
Daí que foi sem grande surpresa que o relatório Digital Britain divulgado hoje pelo executivo de Gordon Brown seja parco em grandes medidas no combate à partilha de ficheiros online. O documento destina-se a definir as linhas-mestras da estratégia de adaptação da economia do Reino Unido para a era digital.
Para diminuir ainda mais as expectativas das editoras discográficas e sociedades de gestão colectiva de direitos de autor, hoje de manhã – horas antes da publicação do relatório – o Times publicou um artigo de opinião em que o primeiro-ministro disse mesmo que o acesso à Internet é tão indispensável como a electricidade, o gás ou a água. Embora não seja o mesmo do que fazer equivaler a Internet a um direito fundamental, a posição de Brown não se afasta muito da que o Parlamento Europeu exprimiu na emenda 138 do Pacote Telecom.
Depois de almoço, chegou a vez do ministro da Cultura Ben Bradshaw apresentar o relatório. E a verdade é que as medidas aí incluídas são bastante vagas, limitando-se a deixar no ar algumas sugestões. Segundo a Music Ally e a Billboard, o texto começa por definir um objectivo: reduzir em 70 a 80 por cento a “pirataria” online até 2011.
O melhor de tudo é que as medidas tecnológicas que se especulava que viessem a ser implementadas apenas entrarão em acção num futuro hipotético. Ao contrário do que se previa, as sanções não serão aplicadas por uma suposta Digital Rights Agency mas sim pela Ofcom, entidade reguladora do mercado britânico das telecomunicações. Numa primeira fase, a Ofcom será encarregada de obrigar os fornecedores de acesso à Internet a notificarem os assinantes cujas contas indiciam ter sido usadas para infringir os direitos de autor. Os ISPs serão também obrigados a disponibilizarem os dados dos partilhadores reincidentes, caso os tribunais o solicitem.
Agora, como é que a indústria parasítica do copyright irá convencer um tribunal de que um endereço IP é uma prova suficientemente forte para demonstrar que o subscritor da ligação foi de facto o responsável pela infracção é que eu não sei…
Caso este sistema de notificações e cartinhas não resultar numa diminuição significativa (70 por cento) da actividade de pirataria online no prazo de 12 meses – o que é bastante provável, a avaliar pelo falhanço do memorando assinado em Julho passado entre os ISPs e os titulares de direitos britânicos e que serviu de inspiração para este modelo -, entra em acção uma segunda fase.
Aqui, a Ofcom terá como missão forçar os ISPs a bloquearem protocolos, portas, sites Web e endereços IP, a diminuir a velocidade de ligação dos partilhadores e/ou a filtrar e identificar conteúdos não autorizados. Só gostava de saber é como é que o governo britânico pretende medir a evolução da taxa de pirataria online. Será que as indústrias do sector terão mais uma vez a oportunidade de inventar uns números à pressão ou será que o governo irá conceder à Ofcom a autoridade de monitorizar o tráfego de Internet dos internautas britânicos através de um spyware compatível apenas com Windows.
Quem vai acabar por pagar este conjunto de medidas ao serviço dos parasitas do copyright vão ser os fornecedores de acesso à Internet: para além de um custo inicial de implementação no valor de 35 milhões de libras (41,5 milhões de euros), por cada ano adicional o Estado – terão que contribuir com 50 milhões de libras (59,3 milhões de euros). Por seu lado, os benefícios para os titulares de direitos são estimados em 200 milhões de libras (237 milhões de euros). Se é assim, então porque não “convidar” os detentores de direitos a comparticiparem as despesas dos ISPs?
No fim de contas, políticas como estas tomadas de cima para baixo acabam sempre por ser um desperdício de dinheiro e por prejudicar os cidadãos/contribuintes/eleitores inocentes. Não admira por isso o florescimento de vários Partidos Pirata um pouco por toda a Europa. É sinal de que nós também queremos ser ouvidos!
Artigos relacionados:
- Reino Unido: ISPs e indústria discográfica de costas voltadas
- Reino Unido quer que ISPs acabem com downloads ilegais até 2009
- Primeiro-ministro britânico nega planos para implementar resposta gradual
- Governo britânico vai mesmo avançar com resposta gradual
- Parlamento Europeu rejeita resposta gradual contra utilizadores de P2P



{ 6 comments… read them below or add one }
Querem por censura e nível mundial onde isto vai parar..
plano A
plano B
plano C >clientes hhe e nesse que eu estou..
Uma vergonha ao que estamos a ver .. venham mais partidos pirata.. ver se acabam com estes xupistas
Leituras: Reino Unido: lá se foi a resposta gradual! http://tinyurl.com/ljmbo9
"Quem vai acabar por pagar este conjunto de medidas ao serviço dos parasitas do copyright vão ser os fornecedores de acesso à Internet" … que repercutirão instantaneamente os ditos custos nos clientes
Ou seja, pagamos mais para menos
O parasita do pirata a chamar parasita a quem trabalha, a quem investe, a quem dá trabalho… claro que não me surpreende, já disseste tantas baboseiras, essa é só mais uma.
Caro Carlos Augusto:
Se há alguém que trabalha no duro sem receber nada sou eu, a desmontar as mentiras que os senhores engravatados da indústria discográfica e cinematográfica propagam através dos meios de comunicação social tradicionais. Esses sim é que são parasitas e não autores como os bloggers, músicos de quarto e videocineastas independentes espalhados pelo mundo que produzem sem estarem à espera que um tesouro lhes caia do céu. São parasitas porque trabalham para empresas que não contribuem nada para a arte e para a criatividade (basta olhar para a história do Rock N' Roll…) e que se limitam a financiar os artistas sempre com a expectativa de receberem balúrdios de dinheiro. Nesse sentido, eles são tão criticáveis como os banqueiros e financeiros que arruinaram a economia ocidental.
Caro carlos,
Já aqui foi dito a pessoas com semelhante discurso: Cuidado com a atribuição leviana que faz dos adjectivos e estereotipos as pessoas. É que pode estar a referir-se a um filho ou familar seu.
E o A_F está coberto de razao. Que são hoje as grandes editoras senão parasitas?
Está lembrado dos processos judiciais que musicos proiminentes puseram ás suas proprias editoras, ainda nos anos 90, por contratos abusivos?
Dou-lhe uma dica de um caso, cujo nome do começa por George e acaba em Michael.
E mais não digo porque já estou a fugir ao assunto desta thread.