Desde há algumas semanas que a Canadian Radio-television and Telecommunications Commision (CRTC) – a entidade reguladora do mercado de telecomunicações no Canadá – tem vindo a realizar uma série de audiências públicas de forma a investigar as práticas de gestão de tráfego dos fornecedores de acesso à Internet nacionais e determinar se o governo deve ou não intervir de forma a defender o princípio da neutralidade da rede.
O tema ganhou dimensões de política pública quando a Comissão Federal das Comunicações (FCC) dos Estados Unidos iniciou uma investigação à Comcast devido a este ISP norte-americano reduzir ao mínimo a largura de banda reservada para determinados protocolos, entre os quais o BitTorrent. Apesar da FCC ter concluído que a Comcast agiu de má fé, a sanção final não foi além de um mero “puxão de orelhas”.
Embora muitos ISPs justifiquem esse tipo de práticas alegando que são necessárias para evitar os congestionamentos da rede e que os utilizadores de P2P são os que mais consomem largura, os produtores de software de partilha de ficheiros consideram que isto constitui uma discriminação em relação a outros serviços de streaming como o YouTube que também são responsáveis por uma boa parte do consumo dos recursos da infra-estrutura de rede.
Mas desta vez, a BitTorrent. Inc. resolveu intervir directamente na questão para defender uma Internet livre e disponível para todos, sem limitações ou filtros para qualquer aplicação tecnológica presente e futura.
Para tal e embora não tenha sido convidada a testemunhar, a companhia fundada por Bram Cohen – o criador do protocolo original de distribuição de conteúdos com o mesmo nome – optou por submeter o seu próprio testemunho. Como afirmou Simon Morris, vice-presidente de Product Management da empresa:
As audiências demonstraram claramente a existência de práticas de gestão de tráfego altamente discriminatórias para com o protocolo BitTorrent, um facto que certamente não surpreende os nossos utilizadores presentes no Canadá.
Segundo Morris, o que está em causa é “o interesse dos cidadãos, a inovação e a liberdade de expressão e não os interesses limitados dos monopólios” das operadoras de telecomunicações norte-americanas.
Para provar o seu ponto de vista, a BitTorrent Inc. chegou mesmo a incluir uma série de estatísticas internas. Desde há algum tempo que a empresa tem vindo a disponibilizar uma gama de serviços de distribuição de conteúdos como videojogos e filmes chamada DNA que combina o protocolo BitTorrent com as soluções tradicionais de alojamento de ficheiros do tipo CDN.
Enquanto que 80 por cento do tráfego de um cliente médio dos serviços DNA é facilitado por BitTorrent, no Canadá essa percentagem desce para menos de 30 por cento, o que faz com que as soluções híbridas P2P/CDN sejam menos atractivas para os fornecedores de conteúdos canadianos.
Outro dado interessante que desmistifica o mito comum de que o BitTorrent é um devorador constante de largura de banda: segundo a companhia, o cliente médio de BitTorrent permanece activo apenas durante quatro dias por mês ou cerca de 10 a 20 por cento do tempo. Isto contrasta com o argumento normalmente avançado pelos ISPs canadianos de que as aplicações de BitTorrent estão permanentemente ligadas 24 sobre 24 horas, sendo usadas pelos utilizadores para fazerem seeding dos ficheiros mesmo quando não estão em frente dos seus computadores pessoais.
Por fim, a empresa ainda anunciou alguns números relativamente ao uTP, um protocolo de UDP que ajuda a detectar os congestionamentos de rede que gerou alguma polémica aquando do seu lançamento no início de Dezembro do ano passado. De acordo com a companhia, neste momento o protocolo está a ser usado por mais de 400 mil beta testers, prevendo-se que seja publicamente disponibilizado dentro de algumas semanas. “A transição eventual para o uTP deverá ter efeitos bastante positivos para a comunidade de ISPs na área do congestionamento de rede.”
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