Já era de se suspeitar mas tudo indica que a notificação enviada na semana passada pela Inspecção Geral das Actividades Culturais (IGAC) à PT ordenando-a que removesse quatro sites alojados na plataforma de blogs do SAPO e bloqueasse o acesso dos clientes da sua oferta de banda larga a 23 outros sites não se baseou na apresentação de quaisquer provas fiáveis que demonstrassem que os sites visados permitem o download de quaisquer conteúdos protegidos por direitos de autor.
Com efeito, segundo o artigo da agência LUSA publicado no Público, a queixa do MAPINET – Movimento Cívico contra a Pirataria na Internet em que a IGAC se baseou para emitir essa ordem não se baseou em qualquer recolha de dados que comprovassem o descarregamento ilegal de ficheiros. De acordo com fonte próxima desta associação-fantasma de todos as organizações nacionais representantes dos interesses das indústrias de entretenimento, o MAPINET apenas se limitou a “observar e a pesquisar” sites:
Para identificar os sites suspeitos, o movimento faz buscas e verifica se as páginas que permitem descarregar música e filmes estão licenciadas ou pertencem a associados seus, considerando ilegais todos os que não preencham esses requisitos. A fonte do MAPiNET acrescentou, contudo, que está a realizar um estudo sobre este fenómeno.
Ou seja: o método para a recolha de provas foi fundamentalmente o mesmo usado por milhões de internautas em todo o mundo para pesquisarem e descarregarem filmes, discos e videojogos a partir do Google. Mas então porque é que o MAPINET não foi mais além e não incluiu o nome desse “perigoso” site pirata na sua lista?
Afinal de contas, o motor de pesquisa – tal como todos os 27 sites que foram parar à lista negra – não aloja quaisquer ficheiros e apenas se limita a encaminhar o utilizador para os conteúdos pretendidos que se encontram alojados nos servidores de empresas como RapidShare e MegaUpload. Essas sim é que deveriam ser os principais alvos dos anti-piratas nacionais. A questão é que eles sabem que não podem ir atrás destas companhias porque elas se encontram sediadas fora da jurisdição portuguesa.
Seja como for, e apesar de estar já marcada uma reunião entre a IGAC e a PT para discutir esta notificação, Abílio Martins, o director de comunicação da operadora de telecomunicações, já fez questão de esclarecer que a companhia “não pode impedir o acesso a nenhum “site” a não ser que tenha uma ordem judicial.” Ora, como todos nós sabemos, a IGAC ainda não é (pelo menos por enquanto!) uma entidade judicial.
Estatísticas enganam muito, principalmente se provenientes de partes interessadas
Ainda a respeito deste artigo devo dizer que a jornalista que o escreveu, Cláudia Páscoa, entrou em contacto comigo para me perguntar se eu tinha alguns dados estatísticos sobre o peso dos downloads ilegais tanto em Portugal como a nível internacional. Daí aqueles dados da IFPI incluídos na parte final do artigo. No entanto e por razões que eu compreendo, a informação incluída foi apenas uma pequeníssima parte do que eu escrevi. Assim, a bem da transparência e da exactidão optei por incluir aqui na íntegra (excepto algumas correcções de gralhas) as minhas respostas às suas perguntas:
Nós estamos a fazer um trabalho sobre a pirataria na Internet. Nesse sentido, gostava de saber se tens alguns dados sobre a dimensão de downloads piratas, nomeadamente a nível de música.
Em Portugal não existem números e a nível internacional os únicos dados que existem são da Federação Internacional da Indústria Fonogrática (IFPI), que tem o inconveniente de ser a organização que representa os interesses das quatro grandes companhias discográficas (Universal, Sony, Warner e EMI), pelo que tem sempre vantagem em empolar os números.
De qualquer forma, segundo a IFPI em 2007 por cada música descarregada legalmente realizaram-se 20 downloads ilegais. Um ano depois e sem fornecer um termo de comparação, a mesma IFPI disse: “em 2008 mais de 40 de mil milhões de músicas foram “sacadas” da Internet sem autorização dos titulares de direitos, o que nas suas contas equivale a 95 por cento de todos os downloads de música” Sendo a IFPI uma parte interessada, convém não depositar muita confiança nestes dados.
Mais importante do que saber qual a dimensão dos downloads piratas é saber se e em que medida é que eles são responsáveis pela descida das vendas de discos e se os utilizadores recorrem de facto aos downloads não autorizados como substitutos da compra da versão legal em formato digital ou CD ou se, pelo contrário, os downloads ilegais servem como uma forma de “experimentar antes de comprar” que até induzem a gastar mais dinheiro com a música, quer na compra de CDs e downloads, quer em bilhetes para concertos ou camisolas. Aqui existem vários estudos independentes que de facto indiciam que esta última hipótese. Caso tenha interesse, eu poderei indicar-lhe concretamente as conclusões desses estudos.
É claro que é sempre muito mais cómodo mostrar os gráficos que representam visualmente a descida das receitas das editoras e culpar a partilha de ficheiros. A questão é que estes gráficos ocultam o facto de que a descida das vendas de discos coincide com o aumento das vendas de DVDs e videojogos, como se pode constar neste gráfico referente ao Reino Unido
Tendo em conta que o orçamento dos consumidores de produtos de entretenimento não é elástico, é natural que eles mostrem mais apetência por artigos que oferecem conteúdos mais ricos. Inclusivamente, a consultora Cap Gemini chegou em tempos à conclusão de que a partilha de ficheiros era apenas responsável por apenas 18 por cento na quebra das receitas da indústria de discos
Por último, se mais fosse necessário bastava dizer que a própria PBS for Music – uma sociedade britânica de direitos de autor que representa autores e compositores de música – admitiu recentemente que o bolo das receitas da indústria de música (e que inclui não só discos mas também concertos, licenciamento para tv, rádio, cinema e publicidade e royalties para serviços de streaming online) continua a aumentar de uma forma sustentada, tendo o sector dos concertos já ultrapassado a venda de discos.
Se tivesse também dados sobre pirataria a nível de cinema também era bom.
Bem, quanto ao cinema é mais difícil porque não acompanho muito esta área e também porque a MPA (Movie Pictures Association) – a associação que representa os maiores estúdios de cinema do mundo – não divulga muito este tipo de dados. Seja como for, o que interessa é que segundo a MPAA – a organização norte-americana que esteve na base da MPA) as receitas de bilheteira das salas de cinema para o conjunto do globo registaram um valor recorde de 28,1 milhões de dólares, o que representa uma subida de 5,2 por cento em relação a 2007 (ver página 2)
Outro dado interessante: um estudo encomendado pela VUZE (a fabricante do cliente de BitTorrent com o mesmo nome) a 693 utilizadores do software e a 606 internautas residentes nos EUA entre os 18 e os 44 anos conclui que os partilhadores compram mais bilhetes de cinema, alugam mais filmes e compram mais DVDs do que os internautas comuns. É evidente que tal como no caso dos dados da IFPI, estamos novamente perante dados fornecidos por uma parte interessada pelo que convém considerá-los com alguma distância.
Gostava ainda de saber se tem conhecimento de quais são os sites piratas mais requisitados pelos portugueses. No caso de não ter esses dados mas saber de alguém que mos possa fornecer também era bom.
Bem, uma forma mais ou menos fiável de verificar isso é através do Top do Alexa dos 100 sites mais visitados a partir de Portugal que tem como inconveniente o facto de só contar com os hábitos de navegação dos utilizadores que tenham a caixa de ferramentas do Alexa instalada no navegador. A questão é que muitos destes sites ditos “pirata” também alojam muitos conteúdos legais para além dos não autorizados. O mesmo acontece com o Youtube, por exemplo, e não é por isso que este é conhecido por ser “pirata”. Outros funcionam como o Google e limitam-se a agir como o motor de pesquisa que reencaminha os utilizadores para os conteúdos que eles pretendem. É o caso do Pirate Bay. Por isso, acho que esta distinção não faz muito sentido. De qualquer forma, aqui vai:
22) RapidShare – http://www.rapidshare.com
39) MegaUpload – http://www.megaupload.com
48) MiniNova – http://www.mininova.org
49) Pirata Tuga – http://www.piratatuga.net
58) Easy Share – http://easy-share.com/
67 e 91) BTNext – http://www.btnext.com – e BTNext.info – http://www.btnext.info
70) SapoTuga – http://sapotuga.com/
72) Pirate Bay – http://www.thepiratebay.org
99) 4Shared – http://www.4shared.com
Não existem artigos relacionados.



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IGAC mandou PT bloquear sites sem se certificar de que disponibilizavam dowloads http://is.gd/2nsiH
IGAC mandou PT bloquear sites sem se certificar de que disponibilizavam downloads http://tinyurl.com/o6ufox
Nossa, fiquei maravilhado com este blog.A indicação foi do Leoni.
Vou indicar aos meus amigos da minha pós graduacão (midias digitais e interativas)
Acredito que em pouco tempo vc vai ter mais leitores brasileiros que portugueses
rs
Abs
"Tendo em conta que o orçamento dos consumidores de produtos de entretenimento não é elástico, é natural que eles mostrem mais apetência por artigos que oferecem conteúdos mais ricos"
Eu pago 55 euros para ter internet mais TV Cabo. Ganho 800 euros por mês e tenho as minhas contas a pagar, e assim como eu deve haver muita gente. Como é que podem exigir que nós consumidores compremos música ao preço que está?
De vez em quando compro um CDzito ou um DVD, mas só quando encontro alguma promoção boa. Por exemplo, a semana passada comprei a primeira série do "X-Files" por 20 euros. Aqui à alguns meses estava quase a 50. Será que eles perderam dinheiro com esta minha compra, ou será que já podiam ter posto este preço à mais tempo? É que eu provavelmente já teria comprado todas as séries do "X-Files" se fossem todas a 20 euros.
Parabéns pelo site. Sou leitor assíduo, e também sou grande apreciador de arte. Que neste país é muito CARA.
@Pedro e @Chico: ainda bem que gostaram mas não se esqueçam de passar a mensagem
Voltem sempre.
Eu venho cá muita vez. Mas agora vou passar a comentar.
É bom ver que os jornalistas já recorrem a quem está a par destes assuntos. Já agora deviam também pedir contrapontos, a ti ou ao pessoal do Partido Pirata, quando os mapinetes vêm com tretas tipo "a pirataria financia o terrorismo".
@Nelson: eu não sou do Partido Pirata nem pretendo ser tão cedo. Sou um jornalista como todos os outros que se dá ao trabalho de investigar mais que os outros e que por isso teve a oportunidade de alcançar uma posição sobre o tema. Daí que me estraga um pouco o negócio estar a "perder tempo" a ajudar os jornalistas a fazerem o seu trabalho. O meu negócio é a venda de conteúdos a pedido – isto é, artigos que ainda não foram publicados – e penso que este caso se enquadra perfeitamente nesta situação. Desta vez cedi porque me fizeram perguntas concretas em vez de me fazerem questões vagas. Mas depois quem se trama sou eu. Mais uma vez: eu não sou defensor do grátis a todo o custo mas sim do freemium; eu não sou militante nem apoiante do Partido Pirata. Sou apenas um simpatizante dos seus princípios, da mesma forma que muitos jornalistas simpatizam com determinadas ideias de alguns partidos. Não sei porque é que os meios de comunicação social se continuam a recusar a encomendar artigos sobre tecnologias de informação a freelancers especializados no assunto. Isso não é nada bom para os leitores que acabam por levar com conteúdos de pior qualidade.
Eu sei q não és do Partido Pirata, e sei qual é a tua ideia de negócio. Até fiquei na dúvida se terias cobrado por essas respostas (achava que não, mas…).
De qualquer forma, pelas opiniões que vais demonstrando, não deixo de achar que darias um bom contraponto. E também te podiam encomendar uns artigos de opinião quando surgem estes assuntos na ordem do dia. Experimenta escrever um artigo sobre esta polémica actual e mandar para vários jornais a ver se alguém lhe pega.
@Nelson: escrever um artigo de opinião e enviá-lo para um jornal não teria qualquer valor económico porque já estaria disponível para toda a gente o ler antes de ser publicado no órgão de comunicação social. De artigos de opinião já está a blogosfera cheia. O trabalho que tento fazer no Remixtures é pura e simplesmente combinar a velha tradição jornalística de narração dos factos, enquadrá-los num contexto espaço-temporal e por fim, sempre que possível, interpretá-los/analizá-los à luz da minha experiência pessoal e das minhas "inclinações". É aqui que pode (e deve) entrar a opinião. Mas ela deve ter sempre um papel minoritário no resultado final. É aqui que penso que está a mais-valia em termos de conteúdos em relação ao tratamento concedido pelos outros media que se limita à mera narração.
Para além disso, duvido que não haja em todos os jornais, revistas, sites informativos ou televisões pelo menos uma pessoa que não conheça o Remixtures. O meio jornalístico português é muito pequeno
O problema é esse <span class="idc-smiley"><span style="background-position: -36px 0pt;"><span>;-)</span></span></span>
Eu digo enviares um artigo sem o publicares aqui. E quem quisesse publicar teria de pagar.
O enquadramento e opinião que transmites acrescenta de facto valor, mas não é um estilo mt típico (e de certa forma ainda bem) dos jornais e revistas. De modo que se eu fosse o editor de algum jornal ou revista generalista contratava-te mais facilmente para artigos de opinião do que para escrever notícias. Para escreveres notícias terias de te moderar bastante.
O facto de os jornais e revistas, e os grupos económicos, que as controlam também viverem dos direitos de autor é capaz de ser também um factor nesta história. Mais facilmente concordam com o MAPINET do que connosco.
@Nelson: escrever um artigo de opinião e enviá-lo para um jornal não teria qualquer valor económico porque já estaria disponível para toda a gente o ler. De artigos de opinião já está a blogosfera cheia. O trabalho que tento fazer no Remixtures é pura e simplesmente combinar a velha tradição jornalística de narração dos factos, enquadrá-los num contexto espaço-temporal e por fim, sempre que possível, interpretá-los/analizá-los à luz da minha experiência pessoal e das minhas "inclinações". É aqui que pode (e deve) entrar a opinião. Mas ela deve ter sempre um papel minoritário no resultado final. É aqui que penso que está a mais-valia em termos de conteúdos em relação ao tratamento concedido pelos outros media que se limita à mera narração.
Para além disso, duvido que não haja em todos os jornais, revistas, sites informativos ou televisões pelo menos uma pessoa que não conheça o Remixtures. O meio jornalístico português é muito pequeno
O problema é esse
RT @remixtures “IGAC mandou PT bloquear sites sem se certificar de que disponibilizavam downloads” → http://is.gd/2oCob
Nelson, mas aí correria o risco enorme de estar a ter trabalho para nada porque não teria a certeza de que a direcção desse órgão de comunicação social daria a resposta pretendida a tempo e horas. Sem ter a certeza de que recebo dinheiro pelo que escrevo mais vale publicar o artigo no Remixtures porque tenho a garantia de que ele chegará a mais de mil pessoas e será sempre lido por mais de 100 pessoas. O mesmo não acontece se eu enviar um artigo para um jornal.
Certamente que sim. Da mesma forma que os bloggers do TechCrunch o fazem quando os seus artigos são publicados no Washington Post ou que os do GigaOm o fazem em relação à Business Week ou que os do ReadWriteWeb o fazem em relação ao New York Times. A isso trata-se de sindicância de conteúdos, que é uma coisa ilgeiramente diferente da que eu proponho.
Os factos informativos tornaram-se desde há muito uma "commodity". O que interessa e o que tem valor económico é o seu enquadramento e a sua interpretação. É isso o que diferencia o jornalismo do mero debitar de comunicados ou do "fulano disse a, beltrano disse b". O que os leitores valorizam hoje em dia não é tanto a objectividade mas sim a transparência. Agora, devo dizer que até hoje tentei sempre manter uma certa equidistância em relação a todas as partes envolvidas nos eventos que aqui refiro sem no entanto cair na hipocrisia e no cinismo. Dito por outras palavras: há coisas que saltam à vista e sinto que estaria a violar profundamente a minha ética e a minha consciência bem como a trair a confiança dos leitores se não expusesse de forma mais ou menos velada, mais ou menos directa a minha posição.
Não sabia da sindicância de conteúdos desses blogs para esses jornais, mas acho q poderia ser uma boa ideia também para o Remixtures se houvesse algum jornal português interessado. Ou até alguma revista sobre música.
Concordo que os meros factos têm pouco valor económico. E mais cedo ou mais tarde até os jornais se vão aperceber disso. No formato papel era importante entregar ao leitor uma compilação de todos os factos do dia (anterior) pois a maioria só comprará um único jornal. Já na internet pode-se encontrar ás dezenas ou centenas de notícias relatando os mesmos factos. É uma multiplicação de trabalho com cada vez menos razão de ser. Torna-se mais interessante ler os blogs onde cada autor faz a sua selecção e dá o seu "spin", análise e opinião aos factos, e onde se geram discussões interessantes. Os jornais metem nos seus sites as mesmas notícias insípidas de sempre, tanto falam de coisas relevantes como de banalidades, não encorajam comentários e discussão e depois admiram-se q as pessoas prefiram os blogs! Até se queixam q os blogs lhes "roubam" os conteúdos! Roubam-lhes leitores, mas é precisamente pq acrescentam algo mais aos factos. Caso contrário era mais eficiente ir directo à fonte.
Já me esquecia… Quanto à minha sugestão de mandares um(s) artigo(s) para os jornais. Sim, é um risco, mas quem não arrisca não petisca. Dás um tempo limite de resposta de 1 ou 2 dias e depois se ninguém estiver interessado públicas no Remixtures. Se alguém quiser, fica com o exclusivo.
E no futuro podia ser que recorressem a ti mais vezes.