Podem chamar.me de lunático ou utópico mas eu continuo a acreditar que uma boa parte do caminho para a sustentabilidade futura do jornalismo e da produção profissional de conteúdos informativos passa pela aposta em modelos de negócio freemium como o que eu aqui lancei ou sistemas de micropagamentos voluntários. A avaliar por esta notícia, é evidente que aqueles que controlam alguns dos maiores mastodontes do panorama nacional dos media não partilham dessa opinião. Mas enquanto isso, o modelo das assinaturas e doações sem restringir o acesso à grande maioria dos conteúdos está a pegar tanto na França como nos Estados Unidos.
Vem isto a propósito de um Manifesto Internet, um documento redigido por 15 jornalistas e bloggers alemães que se uniram para elaborar uma resposta coerente e sucinta à famosa e polémica Declaração de Hamburgo em que os responsáveis pelos grandes grupos de media decidiram que bastaria acabar com as borlas e voltar a erguer um jardim murado em torno dos seus “preciosos” conteúdos. Ora, é óbvio que a Internet e a Web não funcionam assim e isto é, em síntese, o que o Manifesto Internet com a maior clareza possível tenta explicar tanto a leigos como a entendidos. Eu tinha-me proposto a traduzir este manifesto mas o Pedro Teichgräber e o Paulo Querido adiantaram-se a mim. A única coisa que me resta então a fazer é republicar aqui o documento e linkar para a versão portuguesa, como mandam as boas regras da publicação online.
Manifesto Internet
O funcionamento do jornalismo, hoje. 17 constatações.
1. A Internet é diferente.
Ela produz diferentes esferas de público, diferentes termos de troca e diferentes habilidades culturais. Os media têm de adaptar os seus métodos de trabalho à realidade tecnológica actual, em vez de a ignorarem ou desafiarem. É o seu dever desenvolverem a melhor forma possível de jornalismo, com base na tecnologia disponível. Isto inclui novos produtos e métodos jornalísticos.
2. A Internet é um império dos media tamanho de bolso.
A Net reorganiza as estruturas dos media já existentes ao transcender os seus limites anteriores e oligopólios. A publicação e disseminação de conteúdos mediáticos já não estão ligados a investimentos avultados. A concepção própria do jornalismo está, felizmente, a ser esvaziada da sua função de guardiã. Tudo o que resta é a qualidade jornalística através da qual o jornalismo em si se distingue de uma mera publicação.
3. A Internet é a nossa sociedade é a Internet.
As plataformas com base na Net, como as redes sociais, Wikipedia ou o Youtube tornaram-se numa parte da vida diária para a maioria das pessoas no mundo ocidental. São tão acessíveis como o telefone ou a televisão. Se as empresas de comunicação social querem continuar a existir, têm de perceber a vida e o mundo dos utilizadores de hoje e têm de se render às suas formas de comunicação. Isto inclui as formas básicas da comunicação social: ouvir e responder, também conhecido por diálogo.
4. A liberdade da Internet é inviolável.
A arquitectura aberta da Internet constitui a lei básica das Tecnologias da Informação, de uma sociedade que comunica de forma digital e, consequentemente, do jornalismo. Pode não ser alterada em nome da protecção especial de interesses comerciais ou políticos, muitas vezes escondidos sob a falsa pretensão do interesse público. Independentemente da forma como se faz, bloquear o acesso à Internet põe ameaça a livre circulação de informação e corrompe o nosso direito fundamental de obter informação com algum nível de independência.
5. A Internet é a vitória da informação.
Devido a tecnologia inadequada, as empresas de comunicação social, os centros de investigação, as instituições públicas ou outras organizações é que compilavam e classificavam, até agora, a informação mundial. Hoje, qualquer cidadão pode definir o seu próprio filtro noticioso, enquanto os motores de busca mergulham em tesouros de informação de uma magnitude nunca vista. Os indivíduos podem agora informar-se melhor do que nunca.
6. A Internet muda melhora o jornalismo.
Através da Internet, o jornalismo pode cumprir o seu papel socio-educativo de uma nova forma. Isto inclui a apresentação de informação como algo em constante mudança, num processo contínuo; o preço da inalterabilidade dos media impressos é um benifício. Aqueles que querem sobreviver neste novo mundo da informação precisam de um novo idealismo, novas ideias jornalísticas e de um sentido de prazer na exploração deste novo potencial.
7. A Net requer gestão de redes.
Links são ligações. Conhecemo-nos uns aos outros por ligações. Aqueles que não os utilizam excluem-se do discurso social. Isto também é válido para as páginas da Internet das empresas de comunicação social tradicionais.
8. Links recompensam, citações enfeitam.
Os motores de busca e os agregadores facilitam o jornalismo de qualidade: impulsionam a busca de conteúdos notáveis a longo prazo e são também parte integrante da nova esfera pública em rede. As referências através de links e citações – especialmente as que são feitas sem autorização ou remuneração do autor – possibilitam, em primeiro lugar, a própria cultura do discurso social em rede. São susceptíveis de serem protegidas com todos os meios.
9. A Internet é um novo palco para o discurso político.
A Democracia prospera com a participação e a liberdade de informação. Tranferir a discussão política do meio tradicional para a Internet e alargar este debate, ao envolver activamente a participação do público, é uma das novas tarefas do jornalismo.
10. Hoje, liberdade de imprensa significa liberdade de opinião.
O Art. 5º da Constituição alemã não contempla direitos proteccionistas para profissões ou modelos de negócio tecnicamente tradicionais. A Internet ultrapassa as barreiras tecnológicas entre o amador e o profissional. É por isto que o privilégio da liberdade de imprensa se deve aplicar a todos os que contribuam para a concretização das tarefas jornalísticas. Em termos qualitativos não deve ser distinguido o jornalismo pago do que não é pago, mas sim entre o bom e o mau jornalismo.
11. Mais é mais – não existe algo como demasiada informação.
Era uma vez, instituições como a Igreja davam prioridade ao poder sobre o conhecimento individual e avisaram que iria surgir um fluxo de informação transbordante quando foi inventada a imprensa. Por outro lado existiam os panfletários, enciclopedistas e jornalistas que provavam que mais informação leva a mais liberdade, ambas para o indivíduo como para a sociedade enquanto um todo. Até aos dias de hoje, nada mudou a este respeito.
12. A Tradição não é um modelo de negócio.
Pode-se ganhar dinheiro na Internet com conteúdos jornalísticos. Já existem muitos exemplos destes, hoje. Mas, porque a Internet é selvaticamente competitiva, os modelos de negócio têm de ser adaptados à estrutura da Net. Ninguém deve tentar esquivar-se desta adaptação essencial através da criação de políticas para preservar o status quo. O jornalismo precisa de competição livre para as melhores soluções de refinanciamento na Internet, a par de coragem para investir numa implementação multifacetada destas soluções.
13. Os direitos de autor são um dever cívico na Internet.
Os direitos de autor são o fundamento da organização da informação na Internet. Os direitos do autor sobre o tipo e espectro de divulgação dos conteúdos são também válidos para a Net. Ao mesmo tempo, os direitos de autor não podem ser utilizados de forma abusiva enquanto alavanca para salvaguardar mecanismos de distribuição obsoletos e para excluír novos modelos de distribuição ou esquemas de licenciamento. Ser proprietário implica obrigações.
14. A Internet tem muitas unidades monetárias.
Os serviços jornalísticos online financiados através de publicidade oferecem conteúdo em troca de um efeito de encomenda. O tempo de um leitor, telespectador ou ouvinte é valioso. Na indústria do jornalismo esta correlação foi sempre um dos princípios fundamentais do financiamento. Outras formas de refinanciar, jornalisticamente justificáveis, têm de ser criadas e testadas.
15. O que está na Net fica na Net.
A Internet está a elevar o jornalismo para um novo nível qualitativo. Na Internet, o texto, o som e as imagens não têm de continuar a ser temporários. Permanecem acessíveis, ao mesmo tempo que constroem um arquivo da história contemporânea. O jornalismo tem de ter em conta o desenvolvimento da informação, a sua interpretação e os seus erros, isto é, tem de admitir os erros e corrigi-los de forma transparente.
16. A qualidade permanece como a mais importante das qualidades.
A Internet exibe grandes quantidades de conteúdos homogéneos. Só aqueles que se destacam, que são credíveis e excepcionais é que vão ganhar seguidores constantes a longo prazo. As exigências dos utilizadores aumentaram. O jornalismo tem de as satisfazer e continuar a seguir os princípios que elas frequentemente formulam.
17. Tudo para todos.
A Internet constitui uma infraestrutura para uma mudança social, superior à dos meios de comunicação de massa do Séc.XX: Quando tem uma dúvida, a “Geração Wikipédia” tem capacidade para dar valor à credibilidade da fonte, é capaz de seguir a notícia até à sua fonte original, pesquisá-la, verificá-la e avaliá-la – sozinha ou como parte de um esforço conjunto. Os jornalistas que ignoram isto e que não querem respeitar estas capacidades não são levados a sério por estes utilizadores da Internet. E com razão. A Internet possibilita a comunicação directa com aqueles que eram conhecidos como receptores – leitores, ouvintes e espectadores – e permite tirar partido dos seus conhecimentos. Não são os jornalistas que sabem tudo que são procurados, mas sim aqueles que comunicam e investigam.
Internet, 08.09.2009
Markus Beckedahl
Mercedes Bunz
Julius Endert
Johnny Haeusler
Thomas Knüwer
Sascha Lobo
Robin Meyer-Lucht
Wolfgang Michal
Stefan Niggemeier
Kathrin Passig
Janko Röttgers
Peter Schink
Mario Sixtus
Peter Stawowy
Fiete Stegers
Versão para a língua portuguesa por Pedro Teichgräber e Paulo Querido
(Comentários em breve)
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Interessa aqui é divulgar os conceitos. E abrir pontes. Thanks.
Olá Paulo. AInda bem que foste tu a traduzir o manifesto. Assim ganha mais divulgação
(não quero ser pessimista, mas…)
O manifesto é excelente, mas estamos tão longe disto…
Manifesto Internet: porque o futuro do jornalismo online passa por respeitar os leitores http://migre.me/6I2g
Manifesto Internet: como o jornalismo funciona hoje. 17 declarações http://is.gd/369Qi Alô Congresso! (@FlavioDino @deputadamanuela)
Por que o futuro do jornalismo online passa pelo respeito aos leitores? http://bit.ly/bGNk3 (no @remixtures)
RT @diegocamara: Por que o futuro do jornalismo online passa pelo respeito aos leitores? http://bit.ly/bGNk3 (no @remixtures)
Por que o futuro do jornalismo online passa pelo respeito aos leitores? http://bit.ly/bGNk3 RT @diegocamara via @remixtures
Manifesto Internet: porque o futuro do jornalismo online passa por respeitar os leitores http://tinyurl.com/nkeytx
RT @fabinhuh Manifesto Internet: porque o futuro do jornalismo online passa por respeitar os leitores http://tinyurl.com/nkeytx
As novas gerações quase não lêem jornais. A tiragem mundial dos periódicos cai continuamente há mais de 20 anos. É possível que, antes de 2030, a maioria dos jornais já tenha migrado para a internet.”
Qual o futuro dos jornais? Como atender às novas exigências do mercado?
Dê uma olhada – http://inteligenciaonline.wordpress.com/2009/10/14/o-futuro-do-jornal/
Abs